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afonsonunes

afonsonunes

19 Nov, 2008

Conversa fiada

 

 
Não tenho nada que fazer mas tenho muito em que pensar. Não sei se uma coisa terá que ver com a outra. Ou se a primeira fica errada perante a segunda.
O acto de pensar já é fazer alguma coisa, o que pressupõe que nunca se está verdadeiramente sem fazer nada. Parece-me que tem lógica esta teoria, pois não fazer nada é estar inactivo.
Em boa verdade, só se está verdadeiramente inactivo quando se está morto e, felizmente, ainda estou vivo, ou não tivesse eu os dedos a mexer sobre as teclas do computador, embora com o cérebro pouco activo, como se comprova com o resultado desta escrita.
Haverá quem diga, com uma boa dose de razão, que isto é conversa fiada, atendendo apenas a uma apreciação superficial, onde entra o critério de fazer correr a vista sobre as letras monótonas, alinhadas e iguais, onde não se nota se a mão estava nervosa ou calma quando as gerou. O pensamento não foi chamado a pronunciar-se.
Porém, a conversa fiada nem sempre é inútil. Serve para desviar da mente outras conversas que obstinadamente ali moram e teimam em querer sair, sem olhar à oportunidade, nem ao valor intrínseco que realmente têm. É o caso de umas tantas asneiras habitualmente residentes, que nem interessam ao próprio, nem aos outros, e andam por ali apenas a empatar espaço.
Dizer asneiras não é propriamente uma virtude, nem tão pouco um exercício de gente mentalmente sã, embora haja quem defenda o princípio de que mais vale dizer asneiras que ficar a ouvir o zumbido das moscas.
Certamente nunca lhes ocorreu a alternativa da conversa fiada, aquela conversa de ‘xáxa’ que não existe no dicionário, mas enche a boca de muita gente faladora que não gosta mesmo nada de estar calada.
Talvez haja quem esteja a pensar no que eu estou a escrever.
Mas, vendo bem as coisas, só posso ser eu, pois ninguém pode ter lido um escrito que está a nascer neste momento. Um escrito que está destinado ao esquecimento, como acontece aliás, à grande maioria dos que são produzidos no mundo inteiro, por inúmeros amantes da escrita, que encontram nela o desabafo de quem não encontra melhor meio de aliviar os seus pensamentos.
É por isso que a conversa fiada que aparece sob a forma de escrita, tem a virtude de ser bálsamo de muita gente que a produz.
Muita gente se queixa que não tem nada para fazer, embora se martirize dias a fio com a sobrecarga que sente no pensamento.
Apetece dizer-lhes, do fundo do coração, que gritem até sair tudo, que gritem bem alto em direcção ao vento, pois ele se encarregará de espalhar pelo mundo essa mensagem que tanto pesa e tanto espaço ocupa no pensamento de quem julga que não sabe ou não quer escrever, com receio de ser apenas conversa fiada.
Puro engano, pois conversa fiada, é o pão nosso de cada dia de muita gente importante.