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afonsonunes

afonsonunes

02 Nov, 2012

É só uma foto

 

 

Estou totalmente concentrado através do olhar cravado numa foto que aparece com muita frequência em toda a comunicação social. Da minha esquerda para a direita vejo, a meio corpo, o Vítor, o Pedro, o Paulo e o Miguel, sentados, muito juntinhos.

Parece uma foto de família em que há os que falam e os que estão muito sisudos. Os dois do meio contrastam flagrantemente com os dois das pontas. O Pedro e o Paulo estão de cabeça baixa. Vistos assim, ambos mostram escassez de cabelo.

A cabeça do Pedro apresenta o couro cabeludo ainda povoado, mas é notório que o cabelo está muito ralo, mais parecendo umas ervinhas frágeis e dispersas. Já o Paulo apresenta uma testa muito prolongada para trás mas, onde tem cabelo, tem mesmo.  

Quanto ao Pedro, dizem que é sinal de outras fraquezas, enquanto no Paulo, pelo cabelo, não se notam as tristezas que o seu semblante reflete de há uns tempos para cá, em contraste evidente com o seu ar sempre risonho, de cabeça levantada, de outrora.

Na fotografia que observo, o Vítor parece pousar o braço esquerdo sobre o ombro de Pedro. Pode ser ilusão de ótica, mas o braço direito é que não é. Mas, paradoxalmente, o Vítor é mesmo o braço direito do Pedro.

No lado contrário da foto, Miguel inclina-se para Paulo, como se quisesse segredar-lhe qualquer coisa. Mas Paulo, de mão em frente da boca, parece estar com dor de dentes, ou com mau hálito, ou ainda querendo proteger-se de eventual mau hálito de Miguel.

Já o Vítor, com iguais problemas de hálito, parece também querer dizer qualquer coisa ao Pedro, com a mão fechada frente à boca, mas com um dedo a querer penetrar no nariz. Pedro, com a testa quase encostada à mesa, parece não querer ouvir nada.

É uma foto estranha. Os dois familiares dos extremos parecem ativos intervenientes na cena em que participam, dando ânimo aos seus pares, enquanto os dois do meio parecem dois sujeitos passivos, mais virados para uma sesta, pelo menos aparente.

Agora reparo num pormenor significativo, pois as fatiotas de gente importante atraem sempre as atenções. Todos eles, exibem fatos escuros, mas nenhum deles é cinzento. Curiosamente, todos exibem gravatas azuis, mais claras ou mais escuras. Óbvio.

Significativo, é o facto de o Paulo ser o único que tem na sua frente um copo de água. Mas ele não está a meter água. Só está cabisbaixo. E calado. Quanto aos outros três, nem água, nem copo. Isso está fora do regimento. Ou foi o aguadeiro a meter água.

Já agora, assinalo que só há três microfones, quando eles são quatro possíveis oradores. A menos que um deles não esteja disponível para falar, pois não acredito que ali também já tenha chegado a lei da rolha. É que, o Miguel é completamente imprevisível.

A imagem não é de hoje, mas é apresentada muitas vezes como fundo de notícias várias. Os fotografados são notícia todos os dias. E todos os dias há motivos para que a mesma fotografia seja exibida. Não sei se por causa dos ativos, se dos passivos.

Contudo, hoje não é dia para especulações. E também não é dia para que os quatro da foto tenham muita relevância na atualidade. Hoje é dia de se respeitarem os fiéis defuntos, mas também os vivos, que somos todos os que ainda andamos por cá.