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afonsonunes

afonsonunes

09 Nov, 2012

A fome e os tachos

 

 

Volta não volta, tenho de voltar à pobreza como, aliás, já muitas vezes aconteceu ao longo dos tempos. Não o faço agora por causa da conjuntura, tal como não o fiz das outras vezes. Nunca o fiz, nem o faço, para fazer comparações que me repugnam.

A pobreza, ou a fome, não é maior ou menor consoante quem está no poder, mas consoante quem a combate e quem a provoca, embora quem está no poder possa condicionar a sua dimensão consoante as medidas que toma.

Parece que algumas pessoas estão agora muito interessadas em medir o nível atual da existência de fome e compará-lo com o nível existente em anos anteriores. Se esse exercício diverte, ou consola, fazem muito bem. Não sou eu que lhes retiro esse prazer.

Mas insisto em que me repugna a argumentação de quem via tanta fome no país há dois anos e afirma agora que, verdadeiramente, não existe fome. Seria caso para perguntar-lhes se, não havendo fome, há realmente vontade de comer.

Mas, ainda é mais chocante comparar a fome de uns com a abundância de outros. É evidente que há quem possa desperdiçar dinheiro e comida, e quem não tenha dinheiro para as despesas mínimas, nem um pedaço de pão para si e para os seus.  

Pretender fazer crer que, havendo quem possa divertir-se à grande e esbanjar o que lhe apetecer, é sinal de que toda a gente tem sempre comida na mesa. Isto é, no mínimo, estar a desviar o olhar e a colocar-se do lado dos que podem, contra os que nada têm.

O problema é o conceito de alguns, segundo o qual a fome e a pobreza se combatem, exclusivamente, com recurso a pessoas e instituições que o estado subsidia para esse efeito. Isso será um bom complemento desse combate, mas não o único, ou o essencial.

Não se pode aceitar que o estado provoque a fome e a pobreza, reduzindo os meios de subsistência dos cidadãos até ao limite, para poupar meios que depois entrega a outros, para socorrer as suas próprias vítimas. Todo o cidadão tem direito a uma vida digna. 

Não devemos, não podemos voltar ao tempo em que a caridade era o único amparo dos desprotegidos e dos incapacitados para sobreviverem. Os governos, a sociedade, os cidadãos, não podem demitir-se dos mais elementares deveres de solidariedade.

Se há quem ainda pode iludir a existência da miséria com as suas extravagâncias, há que concluir que algo está mal no campo da redistribuição da cobrança dos impostos, depois da injusta tributação, à qual os cidadãos ainda estão completamente subjugados.

É evidente que isto não constitui novidade nenhuma. No país, na Europa e no mundo. Mas, por cá, toca as raias do abuso. Infelizmente, há quem só veja necessidade de austeridade para os que já não aguentam mais. Para esses é fácil falar.

Convinha pois que esses ficassem cientes de que quem passa fome não vai ao cinema, nem ao teatro, nem ao futebol, nem aos concertos. E são muitos, infelizmente, embora sejam menos que aqueles que invocam falsas conclusões dos seus comportamentos.

A fome não pode estar dependente de alguns tachos de comida, mais ou menos vezes ao dia, consoante haja mais ou menos pessoas, mais ou menos solidárias. Mas também não pode estar dependente de quem vê nela, na fome, a defesa dos seus tachos.