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afonsonunes

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A palavra Forte, escrita com letra maiúscula, causa-me um certo arrepio, dado o que deles tenho ouvido dizer a cidadãos mais velhos que eu, os quais, de algum modo tiveram, com essas edificações, algum tipo de proximidade.

Porém, já vou digerindo esse incómodo desde que me habituei a ouvir falar do Forte de S. Julião da Barra, uma espécie de hotel residência de personalidades do maior gabarito nacional. Como sede dos comandos militares ou como local de importantes reuniões.

Nunca lá entrei, mas imagino que deve ter todas as condições exigidas para a tomada de grandes decisões. A excelência do puríssimo ar do oceano com o mar batendo nas rochas, o ruido inspirador das ondas e o esplendor da espuma que se eleva nas alturas.

Cada forte tem a sua história. Como essa matéria não é mesmo o meu forte, vou desviar a conversa noutro sentido. O sentido da utilidade de ter um refúgio forte, seguro e interdito aos mais audazes manifestantes propensos a invasões.

Depois dos efusivos acontecimentos frente ao parlamento e aos palácios, tornou-se necessária uma mudança de ares por parte dos vipes inquilinos, para dar descanso aos atarefados e nervosos representantes diretos do povo trabalhador.

Nada como um Forte para dar proteção aos fracos e mal protegidos, perante as crescentes ameaças de revoluções militares silenciosas e insurreições civis que, obviamente, não passam de tomba barreiras e incendiários de lixo e mobiliário velho.

Nada como um Forte para que os negócios entre o nosso estado e outros estados, sejam tratados com o recato e o sossego que garantem o sucesso na defesa dos interesses nacionais e, consequentemente, um tranquilo estado de espírito para todos nós.

O país poderá assistir em breve a mudanças surpreendentes em termos de residências instaladas em palácios. Vão gastar-se alguns milhares nessas mudanças mas, a prazo, poupam-se milhões em mudanças ocasionais e ausência de despesas com a segurança.

Dos palácios inseguros para os Fortes apalaçados, eis o que vai mudar no panorama residencial dos mais altos representantes do país. Haverá muitos despedimentos de pessoal, mas haverá a vantagem de grandes poupanças nos gastos de funcionamento.  

Mas, acima de tudo, as portuguesas e os portugueses ficarão mais descansados, sabendo que, finalmente, se reconhece a importância dos Fortes na proteção de todas as personalidades que se sintam inseguras onde deviam estar.

Para início dessa política, e em jeito de experiência piloto, lá estarão eles, os dois, com ela, dentro do Forte de S. Julião, olhando a Barra, com olhar triste, através de uma vigia onde não cabem as três cabeças ao mesmo tempo.

Assim, a dela tem lugar cativo. Eles, têm de alternar entre si, qual deles junta a sua, à cabeça dela. Nos ensaios tudo correu conforme o planeado. Até o heli com a bandeira nacional, apareceu em frente da vigia e alguém sorridente perguntou: Querem ajuda?

Com olhar triste, os três, fizeram um esforço para deitar o nariz de fora e, como se não tivessem ensaiado esse momento de frustração, tiveram vontade de chamar o socorrista. Mas, em coro, apenas se ouviu um sussurro: Não, obrigado.