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afonsonunes

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Há muitos anos que os meus ouvidos estão poluídos por tanto ouvir falar de situação e oposição, quando alguém se refere a interesses mais ou menos escondidos.

Até dizem que é tão importante estar na oposição como na situação. Isso é que era bom! ... Digo eu, simples cidadão que entende perfeitamente onde é que eles querem chegar, ao dizer barbaridades dessas. Se fosse assim, como eles dizem, não era necessário insultarem-se tanto, em disputa pelo poder. Por mantê-lo, uns, por conquistá-lo, os outros.
É evidente que estar na situação é muito mais cómodo e lucrativo, que jazer na oposição. Portanto, não me venham eles com cantigas de embalar meninos, dizendo que ambas são igualmente importantes, quando sabemos que todos ambicionam ser situacionistas, para sempre, o que equivale à fixação de vida no bem bom, que é como quem diz, no quentinho.
Quem está do lado de fora, ao frio e à intempérie, ouve a tosse mas não vê os micróbios. E, sem dar por isso, às tantas, está contaminado e, se não se põe a pau, fica mesmo apanhado entre duas epidemias, a de fora e a de dentro, restando-lhe cair para aquela que o contaminou com mais vigor. Mas, a outra, se for a da razão ou a do coração, não o deixará em paz e vai martirizá-lo incansavelmente, tentando atraí-lo para o seu raio de acção.
Situação ou oposição, eis a questão.
Está definitivamente decidido que a partir deste momento passei para a oposição. Estou farto. Farto de estar na situação e ouvir o que nem um santo dos mais antigos tinha paciência para ouvir.
Não é difícil perceber que a oposição pode dizer o que lhe apetece à situação, sem que ninguém se insurja com os excessos, os insultos e até umas corriqueiras ordinarices, que se tornaram o pão nosso de cada dia nas suas intervenções públicas.
A situação não tem outro remédio senão aguentar, pois se responde, é acusada de arrogante e intolerante, perante as críticas que lhe são dirigidas. Se não responde, entre outros mimos, é acusada de cobardia, perante o facto de não arranjar coragem para se pronunciar sobre as críticas que lhe são apontadas.
Por esse motivo, não quero mais estar na situação. O mesmo é dizer que não quero mais ser bombo da festa, onde todos batem pelo prazer que lhes dá o barulho dos seus batuques na pele lisa e esticada.
Mas, para mim, não é fácil começar a fazer oposição. Em primeiro lugar, porque sou uma pessoa educada e respeitadora de todas as opiniões. Em segundo lugar, porque não consigo atinar a quem ou a quê vou fazer oposição.
Não me parece lógico nem coerente que vá fazer oposição à situação. Desta, acabei eu de sair agora. Seria o mesmo que começar a insultar a minha própria sombra e validar o comportamento de todos aqueles que me fartei de ouvir.
Mas, a verdade é que eu agora também estou na oposição, tal como eles. Não. Como eles, não! ... A minha oposição tem de ser diferente. Vou deixar em paz a situação e vou dedicar os meus maus humores a toda a oposição, pois nada há que me impeça de ser oposição à própria oposição.
Posso usar em relação a eles, os mesmos métodos que eles usam para com a situação, não tendo eu agora o dever de ser sensato, comedido e educado, como tinha antes de me mudar. Agora também posso ser como eles. Como é bom, poder desopilar.