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afonsonunes

afonsonunes

21 Nov, 2008

Como eu o invejo

Vejo um gato sentado atrás da vidraça de uma janela. Não pude deixar de o observar atentamente depois de me ter chamado a atenção com a sua pose calma e serena, imóvel e sonhadora.

Os olhos sonolentos abriam-se e logo se fechavam por curtos espaços, quase imperceptivelmente, como se lhe fossem indiferentes as imagens que lhe chegavam do exterior, que ia trocando pelas que retinha interiormente. Ou então, nem umas nem outras lhe impressionavam a sensibilidade, preferindo dar prioridade ao estado de êxtase em que, inconscientemente, se deliciava.
Um gato sentado, assim, é uma imagem extraordinária de doçura. Transmite a sensação de que a maldade não existe, porque ele nada diz, nada ouve, não interfere com nada, nem com ninguém.
É um cromo irreal, com vida, como se fosse um cromo de verdade, uma imagem perfeita do sossego e do repouso, durante o qual nada quer dar nem receber.
Muitos homens e muitas mulheres precisavam ter momentos assim, sentados, descontraídos, dirigindo o olhar para dentro de si próprios, como se ali houvesse um cantinho fora do mundo actual, onde pudessem encontrar a paz, o silêncio e um estado de alma semelhante ao êxtase do gato sentado.
Não podemos ignorar que há homens e mulheres que conseguem libertar-se de tudo o que os rodeia e fazem longas reflexões e meditações, mas esses são muito poucos. São tão poucos que não conseguem baixar o ruído do frenesim de quem pulula à sua volta, de olhos baixos, cravados no chão, em lugar de os levantarem para a imensidão do firmamento onde, não vendo nada, encontrariam o antídoto para a confusão que sentem permanentemente nos seus ouvidos.
Deixei o gato no seu arrebatamento, mas a sua imagem continuou na minha memória, agora procurando servir-me dela para aperfeiçoar o meu estado de espírito futuro.
De imediato me vieram à lembrança pequenas guerras que travava diariamente, simplesmente, porque ouvia o que não gostava, ou via o que bem podia evitar, factos que eu não podia dominar nem alterar, por muito generoso ou lutador que quisesse ser.
O gato não tinha esses problemas. Pareceu-me que devia seguir o procedimento que a sua imagem me sugeria.
Podia elevar o pensamento até às nuvens, semicerrar os olhos para que não interferissem, e deixar-me conduzir até atingir o êxtase inebriante que volatiliza todos os sentidos. Como não sabia o que isso era, fiquei a matutar no modo de conseguir tão almejado estado de pureza e enlevo, embora reconhecendo que só o conseguiria se atingisse um grau de contemplação a roçar o sobrenatural.
Senti um arrepio pelo corpo todo, como se acabasse de concluir que estava com os pés bem assentes na terra e não atrás da vidraça da janela, onde apenas um vidro separa o paraíso felino, do inferno humano da rua.