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afonsonunes

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Finalmente vai chovendo por todo o país, depois de longos meses em que não se ouvia falar senão das duas secas que nos atormentavam. E era o país que estava em causa, pois se uma das secas era severa, a outra era e é, terrivelmente austera.

Se já era muito difícil suportar a segunda, a mais antiga, que nos massacra há muito mais tempo que a primeira, começava a ser insuportável aguentar com uma em cima da outra. Há uns meses que a sede nos ameaçava mas, vá lá, lá veio a chuva.

Só não vem uma chuvada de qualquer coisa que afogue esta peste de austeridade que nos trouxe a maior e a mais terrível seca de sempre que, mesmo sem sede, está a deixar muitas barrigas cheias de fome, pois não adianta enchê-las apenas com água da chuva. 

Os anos têm-nos brindado com secas sucessivas pois, atrás de seca, seca vem, e os cidadãos já começam a duvidar de si próprios quanto à possibilidade de se livrarem deste flagelo. Porque ouvem muitos a falar deles e muito poucos a estar do seu lado.

E os que estão do seu lado, não podem dar-lhes mais que a solidariedade de quem sofre do mesmo mal, enquanto os do lado de lá, lhes vão mostrando a sua relutância em prescindir dos seus excessos e da sua ganância, servidas com muita hipocrisia.

Não há pior seca que aquela que deixa os cidadãos entregues a toda a espécie de violências, ainda que disfarçadas de uma falsa proteção e de promessas de que o melhor está para vir, como se isto fosse a terra do tio Sam.

Porém, há uma seca que vai assumindo foros de fantasma que sobressalta já muita gente que sabe ler os sinais que surgem aqui e ali. É o fantasma da perseguição pessoa a pessoa, ao sabor de mentes que estão a aplicar o seu lema de, tudo e todos por nós.  

A verdade é que as secas de sucessivos governantes e seus acólitos, cada vez em maior número e causadores de mais intempéries de poeiras secas empurram-nos, como se de imparáveis forças se tratasse, para o inóspito deserto que nos tratará da saúde.