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afonsonunes

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25 Nov, 2012

Ensaios

 

 

Em Portugal ensaia-se muita coisa, há muitos anos, mas não temos tido sorte com os resultados desses ensaios. Não é que não tenhamos coisas boas, que temos, mas essas, ou muitas delas, estão a sumir-se como que engolidas pela atrocidade dos tempos.

Ou talvez não seja bem isso, visto que já António Aleixo, o poeta das quadras simples mas bem direcionadas, também quis demostrar que, na sua visão do futuro, fazia ensaios sobre quem parecia ser ladrão e quem o era de facto.

Naquele tempo, parece que as previsões, ou os ensaios, mesmo os de um homem simples e iletrado, batiam mais certos que os de hoje, feitos por especialistas que só têm um defeito. Não conseguem ensaiar juntos, nem acertar em tons comuns.

Muitos anos depois de Aleixo, Portugal conheceu o Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago que, se fosse vivo, teria agora noventa anos. Um ensaio que percorreu os anos e a cegueira, a terrível cegueira dos homens, que só varia nos sinais dos que veem.

Comemorou-se hoje mais um aniversário do 25 de novembro, motivo para mais uma oportunidade para conhecer ensaios de viva voz dos generais Pires Veloso e Ramalho Eanes. O Vice-Rei do Norte e o alcainense que muito tem falado sobre a pobreza.

Curiosamente, um e o outro ensaiam largas tiradas sobre o que sonharam para o país e as suas contribuições para o evoluir dos tempos e da sociedade. Só não lhes ouvi palavras claras de apoio, ou de crítica, ao momento político que o país atravessa.

Pareceu-me assim que um e o outro fizeram mais um ensaio sobre a forma de estar de bem com toda a gente, mesmo com aquela gente que tem contribuído e continua a contribuir para que se prolongue e agrave aquilo que tanto lamentam.

Foi ontem, no norte, que uma voz falou no ensaio sobre a estupidez. Foi hoje, na Madeira, que alguém fez um ensaio de qualquer coisa muito parecida. Aliás, naquela tão martirizada ilha, raro é o dia em que essa malvada não ataca ferozmente.

Em contrapartida, não há meio de se vislumbrar neste assolado país de pobreza, um assomo de ensaio sobre o juízo. Juízo e falta dele, que parece ter atacado fortemente no sentido de ascender a um nível a que o povo não pertence.