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afonsonunes

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Que anda muita gente com falta de ar, já todos nós sabíamos, pois basta ver a ginástica diária que uma boa parte dos portugueses fazem, para resistir às contrariedades que acabam por criar suspiros de ansiedade e, em muitos casos, lágrimas de verdadeiro desespero. Nestes casos, a falta de ar resulta, portanto, de apertos de corações angustiados.
Mas, não é só isso que nos preocupa. Quem nos lembra esse flagelo é alguém que tem um bom assento, num local onde não há salários em atraso, nem tem nada a ver com o salário mínimo, nem tão pouco está em risco de provocar desemprego, seja de quem for. Porque não pode haver falência legal ou fraudulenta de quem paga pontualmente uma pipa de massa a esse alguém, sem que corra o risco de ser abrangido pela deslocalização desse paraíso que o alberga.
Esse alguém, lança-nos um repto muito interessante, através da sua voz sibilina, mas muito nasalada, quando diz que é inaceitável que o fulano fale com o sicrano. Mais que isso. É intolerável que tal aconteça, logo, é deplorável que o país assista a tão miserável situação. Acrescenta ainda que é impensável que o fulano não esteja a catequizar o sicrano, de forma lamentável, para obter dele o indesejável favor de um elogio altamente reprovável.
Quase me sinto tentado a revelar o currículo deste ilustre Ável, reputado cidadão, que nos transmite a confortável sensação de podermos dormir descansados, devido à sua incansável acção de vigia, não só do execrável fulano, como do irresponsável sicrano. O país do Ável, é uma insuportável democracia de falta de ar, porque o tal fulano respira demais, tornando o ar insuficiente e irrespirável, com a culpável acção do sicrano, que tem o grande defeito de ser facilmente subornável.
É espectável que o nosso benfeitor Ável não entre num elevador, nem seja capaz de se manter de forma estável num compartimento, mesmo agradável, sem que comece de imediato a correr para junto de uma janela. Não é suportável permanecer em ambiente não arejável. É uma inevitável incapacidade, que o obriga a ver no fulano, o responsável pelo consumo do ar que lhe falta a toda a hora, já que não é insuflável.
Gramaticalmente, parece-me já ter ouvido o termo correcto para definir esta incapacidade mas, de momento, varreu-se-me. Tenho apenas uma vaga ideia de que se trata de uma fobia, talvez relacionada com o isolamento que se vive nos conventos mas, curiosamente, ali não se dizem incoerências nem disparates pois, como toda a gente sabe, os claustros são locais de silêncio e reflexão. E, que eu saiba, nunca ali faltou o ar a nenhum frade ou freira, que sempre respiraram democraticamente, sem que tivessem de disputar o ar que os rodeia.
No meio de tanta coisa que me preocupa, só cá faltava esta fobia dos claustros, onde nem sei se há ou não democracia.