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afonsonunes

afonsonunes

06 Dez, 2012

Não te demitas

 

 

Não compreendo esta fobia que parece ter atacado uns grupelhos de manifestantes, seja nas ruas ou nos salões, onde vais dizer umas coisas que, apesar de muito claras e muito bem pronunciadas, ninguém consegue interpretar devidamente. Não cries dúvidas ou complexos sobre os teus dotes comunicacionais, pois o problema não é teu.

Chego a essa conclusão ao analisar minuciosamente aquilo que se passa comigo próprio. Entendo sempre tudo o que tu dizes com o sentido inverso ao daquele que, posteriormente, tens a paciência de nos fornecer. Ora o que se passa comigo é, de certeza absoluta, aquilo que se passa com a maior parte dos cidadãos que te ouvem.

É essa, com certeza, a razão que leva os tais grupelhos a apresentar cartazes de todos os tipos, e faixas de pano de vários preços e cores, com inscrições que vão todas dar ao mesmo: demite-te. Os portadores dessa fantasmagórica mensagem, espalham ainda pelos ares as suas vozes agoirentas e completamente infundadas e descabidas: gatunos!

Sei que estás a ponderar muito seriamente, e democraticamente, dar uma resposta positiva a essa gente angustiada com as suas obsessões doentias. Até essa gente sabe que não pensa como gente. Sabe perfeitamente que o barulho só serve para espantar os pardais das hortas. Como se sabe já não há hortas e os pardais são cada vez menos.

Obviamente que isso não é o povo, nem ninguém que minimamente o represente. Mas tu, eleito pelo povo, expoente máximo de uma democracia forte e madura como a que temos, estás preocupado, receoso até, que alguém possa pensar que estás a ser justamente contestado por quem desde há muito te admirou.

Daí que possas ter essa reação de lhes fazer a vontade. Talvez porque possas estar a sofrer de um infundado sentimento de culpa ou de algum desejo de demonstrar pena pelo sofrimento dessa gente que está longe de perceber onde estão realmente os seus interesses, a sua segurança e o seu bem-estar.

Não é pois o caso para se falar em loucura coletiva, nem é caso para se começar a pensar nisso. É apenas o resultado de muita ignorância e da maior injustiça para com aquele que tem cumprido tudo o que prometeu. Só não pensa assim, quem pertence aos já citados grupelhos que envenenam a nossa boa e democrática vivência.

Não te iludas com esses que gritam aos magotes: se isto não é o povo, onde é que está o povo. Toda a gente sabe que o povo está metido em casa a pensar no que vai comer ao jantar. Sobretudo, o povo que já sentiu o desconforto de não ter almoçado e por causa da incomodidade que lhe causou o transtorno dos filhos não terem tido escola.

O povo não quer correr mais riscos. Mal por mal, já basta assim. Senhoras e senhores, vós que andais a tentar desestabilizar o país, dizei que estamos mal, mas dizei também que vamos ficar pior ainda. É uma ordem: acabem já com essa barbaridade do berro ou da faixa: demite-te! Desesperado, o povo humilde só pede: por favor, não te demitas.