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afonsonunes

afonsonunes

08 Dez, 2012

Poder à vista

 

 

Hoje em dia ainda faço parte do pagode português que serve de diversão a uns tantos portugueses que já fazem parte do pagode chinês. Há uns anos atrás, foi motivo de grande chacota o facto de um governante tentar fazer da China um parceiro comercial que se reconhecia já então, ser um passo importante no nosso desenvolvimento.

Gente grada da nossa praça fez grande alarido com o pagode chinês. Hoje, o pagode é outro, embora os chineses continuem a ser chineses. Os portugueses, esses mudaram bastante e já são considerados o pagode vítima de quem anda a implorar, ou a mendigar, uns milhões de investimentos neste triste pagode português.

Diz-se por aí que alguém está a gozar com o pagode. Como faço parte desse imenso pagode, tenho de aceitar que alguém está a gozar comigo. Até nem me importava mesmo nada, se também eu tivesse o prazer de estar a gozar com alguém. Nisto, como em tudo, tem de haver alguma reciprocidade senão, podemos ter o caldo entornado.

O problema é que o pagode não está com vontade de gozar, nem de ser gozado, pois o caldo já está entornado há algum tempo. Tudo porque em redor da mesa onde ele se entornou, andam muitas moscas ansiosas em busca do poder de umas colheradas desse reconfortante caldo que, pensam elas, tudo concede de bom.

Através dessas moscas, o poder anda no ar. Já há quem lhe sinta o cheiro. E até já há quem lhe pareça que o tem ao alcance da vista. Não admira pois, que se fale em pagode, que até pode ser português e chinês ao mesmo tempo. Talvez nem seja descabido falar em pagode luso-chinês, nestes tempos de mãos rotas e de mãos vazias.

Já não tenho dúvidas se nós, pagode português, não estaremos a enganar o pagode chinês, ao estarmos a transferir para eles, o poder que já não temos, ou estamos à beira de perder completamente. Mesmo assim, as moscas andam agitadas e meio descontroladas em volta da mesa onde sentem que ainda há cheiro de poder.

Parece bastante estranho que ainda haja tanta sede por um poder que já voou. É caso para perguntar se ele deixa algum rasto de migalhas que ainda sirvam para tornar felizes os muitos que estavam fora dele. Isto, se forem capazes de impedir a continuação daqueles que, com unhas e dentes, tentam desesperadamente conservá-lo.

O país anda atrapalhado com tanta atrapalhação. Os candidatos ao poder andam atrapalhados com tanta indecisão. Os comentadores andam atrapalhados por já terem esgotado todos os adjetivos e todas as frases dignas da ocasião. Os controladores do poder andam atrapalhados sem saber o que devem dizer e o que devem fazer.

Se o velho poder ainda está à vista não há, verdadeiramente, quem consiga distinguir  lá ao longe, os que lhe manobram os cordelinhos. São muitos os vultos, no meio de um nevoeiro que torna o poder numa bruma muito diluída. Se o novo poder já está à vista, não há ainda quem vislumbre os rostos que vão torná-lo realidade.  

É caso para dizer, isto está bonito, está. Se não está bom para quem não se conforma com o pagode reinante, porque quer melhor pagode, também não está melhor para os autores do pagode que temos. Mas, entretanto, quem está bem pior, é o pagode que está a ver a vida a andar para trás, para sustentar o pagode dos outros.