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afonsonunes

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Guterres assumiu a sua cota parte de responsabilidade na situação do país, na medida em que foi um dos seus governantes. Na comunicação social foi dado grande destaque ao facto de ele ter assumido a responsabilidade pela situação atual do país. Parece a mesma coisa mas não é. Ele assumiu que foi um entre todos os outros.

Barroso disse mais ou menos o mesmo, acrescentando que não foi o seu governo que criou esta situação. A comunicação social apenas deu relevo à segunda parte do que ele disse. Parece, assim, que o país deve agora pedir contas a Guterres e não a Barroso. É fácil ver como a gente percebe a diferença entre as verdades e as meias verdades.

Mas vamos por partes. Guterres foi o único governante que teve a coragem de se ir embora, não para aproveitar nenhum bem bom, mas porque lhe não deixaram então, bem sabemos quem, evitar o pântano que já estava bem à vista e que, como é costume dos políticos, bem podia dizer, com justificados motivos, do muito que vinha de trás.

Hoje, já nem é preciso meter explicador, para se perceber que há muita conversa de desculpas e passa culpas que só as engole quem quer. Mas também sabemos que Barroso fugiu, emigrou porque, mesmo com maioria, não vislumbrou maneira de sair do barco airosamente, por incapacidade ou por medo do que lá vinha, como veio.

Quando Barroso se desculpa agora com o PIB, esquece-se de falar do défice. Cada qual puxa das contas que lhe convém, como é óbvio. Quando diz que não foi ele que criou a situação, é evidente que está a varrer o lixo para a frente. E, para a frente, sabemos bem, logo vem à mente de muita gente, aquele que viria a ser o seu amigo de ocasião.

Também Barroso devia assumir a sua relação muito próxima, de explicador para com o bom aluno, aquele que agora, por omissão e interesse, considera chumbado por mau comportamento. Esse é outro dossiê que a história, a seu devido tempo, não deixará de trazer a quem só vê o que lhe metem à força pelos olhos dentro.

Guterres não enganou ninguém, não fugiu de ninguém. Nunca teve maioria que lhe permitisse fazer o que entendia como certo. Cometeu os erros que todos os governantes cometeram ao longo dos anos, desde a implantação da democracia. E são essas responsabilidades que uns assumem, outros não. Questão de seriedade.

Barroso soube governar a sua vida. Mas não soube manter uma linha de coerência entre a política da verdade e o politicamente correto. Até o seu mandato na Europa tem demonstrado isso mesmo. Um político que balança entre os mais fortes para que não lhe falte o equilíbrio instável em que sabe que só assim sobreviverá.

Contudo, é muito difícil sobreviver nesta Europa de mentiras, de deslealdades e de falta de solidariedade. Daí que, enquanto Guterres se mantem afastado de tudo aquilo que se afastou, Barroso já anda a preparar uma nesga de terreno por onde possa infiltrar-se no campo minado que ajudou a minar e de que então fugiu com medo do estrondo.