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afonsonunes

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Hoje, ao acordar, pareceu-me ouvir o troar dos canhões, vindo do interior do rádio de cabeceira que, entretanto, abri para ouvir as notícias. Falava um alto entendido em questões marciais que, só não me pôs em sentido, porque estava na posição horizontal e em trajos menores, com a agravante de estar muito frio cá fora.

A verdade é que fiquei mesmo baralhado, sem saber se havia de ficar satisfeito com a possibilidade de vir aí uma segunda edição da revolução dos cravos, ou se havia de ficar assustado com a eventualidade de se aproximar uma contra revolução semelhante a outra então abortada. A minha maior dúvida, residia na forma como me devia preparar para um desses eventos, já que a bandeirinha que devia levar para a rua, tinha de ser completamente diferente.
Depois apeteceu-me perguntar ao supremo entendido em guerras, se ele próprio estava a publicitar a primeira ou a segunda hipótese. Mas, aquele alerta não estava integrado em nenhum fórum, logo, competia-me ouvir e calar. No entanto, ninguém me impedia de pensar.
Para mim, a coisa até nem teria grande importância, se não me alertassem para o facto de a democracia poder vir a estar em risco, por causa de um indefinido mal-estar, que podia levar alguém a cometer disparates lamentáveis. Ora aqui é que está o busílis. O mal-estar justifica ou não um alerta, ou um incentivo, para dar cobertura a disparates. Até parece que os disparates podem ser aceitáveis ou não. Mas, então, se são aceitáveis, nunca serão disparates, mas antes actos que se justificam com o mal-estar, discutível ou indiscutível.
Porém, o pior é afirmar que um mal-estar e seus consequentes disparates, podem pôr em causa a democracia. Eu, que não sou especialista em nada deste mundo, penso que isso equivaleria a subverter o regime vigente, entregando os destinos do país aos pacientes do mal-estar, e autores dos disparates que levariam à queda do regime.
Então, havia de ser bonito, pois teríamos um mal-estar restrito, substituído por um bem-estar igualmente restrito, que teria de ser conseguido à custa do agravamento do mal-estar generalizado. Já tenho ouvido na televisão, ‘mas que raio de democracia é esta?’. Até nem me soa muito bem este tipo de interrogações, porque cada vez me convenço mais que a democracia, sendo o menor dos males, anda cada vez mais dependente do estômago, ou da barriguinha de cada um. Agora, parece que já não é preciso haver eleições para saber quem nos governa.
É por isso que temos anunciadas várias guerras com a proximidade do escrutínio popular. E já não são só os generais e os sargentos a decretar os campos de batalha. Resta saber até quando o povo os deixará continuar com a técnica guerreira dos disparates. Uma coisa, é falar em nome do povo, outra coisa bem diferente, é ter o apoio dele.