Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

12 Dez, 2012

Luz laranja

 

Há uns tempos atrás, a luz verde era o sinal convencional para que se pudesse avançar em segurança. Os tempos desta nova ordem democrática estão a transformar o verde numa cor ultrapassada e ao mesmo tempo perigosa pois, se olhamos para ela com excesso de confiança, corremos o risco de ser violentamente atropelados.

Agora, o vermelho está cada vez mais um sinal de proibição absoluta e inultrapassável em tudo o que mexa com a vida dos cidadãos. Pior ainda se o vermelho tiver uma coloração mais suave, pois embora fira menos a vista de certas pessoas, traz à memória aquela intolerável coisa que dá pelo nome de cor-de-rosa.

Já ninguém ignora que a cor laranja, que até já substituiu o amarelo dos semáforos, é o sinal mais seguro para que se evitem percalços de toda a ordem. Mesmo o laranja intermitente dá garantia máxima, pois ninguém se atreve a desrespeitá-lo. Mais, até fora da rua, com o sinal laranja aberto, todas as portas se abrem de par em par.

A gente percorre o país de lés-a-lés e encontra à porta de tudo o que ainda é público, uma espécie de raminho imaginário de flor de laranjeira que denuncia a existência do exército laranja que já ocupou tudo o que manda vir com o tal pagode de que um deles falou há dias. Manda vir e também manda ir muita gente a um lado que eu cá sei.    

Esse exército parece uma extensa linha de montagem onde cada um deles monta uma peça, ou um conjunto de peças, até chegar ao fim da linha, onde o montador mor só tem que dar o seu ok ao produto final. Daí que, se o produto final é um fiasco, ninguém tem culpa, ninguém é responsabilizado, porque o problema está na insubstituível linha.

Obviamente que ao longo de toda a linha há muitos controladores que vigiam tudo e todos os que querem intrometer o seu olhar crítico, pois isso pode significar que acabe por se tornar perigosamente inquisitório. Acima desses controladores, sente-se a mão e o poder de forças invisíveis que substituem todos os elos que desafinam na linha.

A luz laranja está permanentemente acesa, não sendo permitida outra fonte de luz nesta linha de montagem que se estende pelo país inteiro. Podia parecer que ia demorar muito tempo a instalar, devido à sua complexidade. Afinal, demorou muito menos tempo que a implantação das tão propaladas medidas estruturais.

Ou talvez tenha a sua lógica. As medidas estruturais não podiam ser implementadas sem que a linha de montagem estivesse a funcionar em pleno. Daí que a prioridade fosse inteiramente para a estratégia seguida. Primeiro, montou-se o circo e colocaram-se os artistas. Só depois começou a pensar-se no espetáculo. Só com luzes laranja.