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afonsonunes

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16 Dez, 2012

Já cheira a Natal

 

Quando se aproxima esta época do ano ouve-se falar muito de solidariedade e de amor pelo próximo. Há campanhas de todo o género para ajudar os mais necessitados e as televisões enchem as suas programações de festas em que reúnem a nata dos artistas nacionais, para levar algum alento aos que se encontram em situações mais complicadas e que ainda veem televisão.

Este ano as atenções têm-se concentrado muito em torno das diferenças entre solidariedade e caridade com as habituais divergências atribuídas aos pontos de vista políticos dos intervenientes nas conversas. O tema tem muito que se lhe diga, tanto mais que o país parece ter optado pelo rumo de entregar a quem faz caridade, uma boa parte do muito que retira da solidariedade.

Mesmo assim, continuamos a ver cada vez mais pessoas na rua, sentadas no chão, com este frio, sem agasalhos, de rosto meio tapado, implorando uma esmola, com vozes por vezes lancinantes, refletindo a dor que mostra bem o desespero de quem nada tem na vida. Sem solidariedade social, também não se vê que a caridade cumpra mais que os seus serviços mínimos.    

Custa muito ver gente assim, pessoas que já perderam toda a dignidade, sujeitas à dependência de uns escassos e míseros cêntimos que, perante a indiferença de muitos, caem de mãos anónimas, para manter vidas no limite do sustentável. Quantas vezes, esses cêntimos vêm de gente que tem grande dificuldade, ela própria, em manter a sua vida normal.

Porque no Natal vemos luzes de todas as cores profusamente espalhadas pelas principais ruas, avenidas e praças de tantas vilas e cidades, seria bom que não houvesse escuridão total em tantas casas e barracas nos subúrbios dessas mesmas localidades. Haveria sempre maneira de minorar essas situações, assim houvesse vontade de quem tem condições e a obrigação de o fazer.

A situação de muitos dos lares nessa escuridão, resultou dos milhões subtraídos à solidariedade para transferir alguns para a caridade. E a caridade, como facilmente se constata na rua, deixa de fora, não se sabe por que motivos, os casos mais gritantes de miséria. Casos que ninguém quer ver. Talvez porque se vai perdendo a olhos vistos a noção do que é a dignidade.

Por uma questão que pode parecer de sanidade mental, não se deve cometer o abominável erro da mais pura hipocrisia, que é pretender que estas pessoas humilhadas, à beira do desespero, tenham esperança no futuro. Imagino o que elas sentirão quando alguém lhes desejar boas festas. O Natal é a festa da família, mas as famílias destroçadas não podem ter festas de Natal.