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afonsonunes

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24 Nov, 2008

Os outros pobres

 

Andam demasiados pobres a empobrecer-nos cada vez mais. Parece que ninguém contesta que somos um país pobre. O que parece que quase ninguém quer perceber é a razão porque não vamos sair desta situação enquanto muita gente não mudar de atitude.
Temos à volta de quatrocentos mil desempregados, mas há empresas que querem admitir pessoal e não encontram quem queira trabalhar. São exemplos disso os anúncios nos jornais e os pedidos nas montras ou nas portas dos estabelecimentos comerciais à procura de colaboradores, como agora chamam aos empregados. Desta incoerência resultam montes de subsídios de desemprego, ou do rendimento de inserção, pagos pelos poucos portugueses que trabalham, porque não são os governantes que pagam do seu bolso, como é óbvio.
Entramos em qualquer lado e quase só ouvimos falar português mal amanhado de meninas do leste, ou com aquele sotaque característico do outro lado mar. Para não falar na construção civil ou na agricultura empresarial, onde os portugueses já quase não fazem calos nas mãos. Toda esta mão de obra custa dinheiro ao país, dinheiro que na sua quase totalidade vai para os países de origem desses trabalhadores.
No entanto, há muitos portugueses que continuam a emigrar, com o argumento de que não conseguem encontrar trabalho no país ou, o que lhes é oferecido, é mal retribuído. Depois, vão lá para fora trabalhar dia e noite para ganhar o que não querem ganhar cá, quer pelo horário, quer pela natureza do trabalho. Com a agravante de que, volta não volta, são burlados e voltam de mãos a abanar, depois de intervenções dos consulados que os ajudam a regressar.
Claro que a culpa de tudo isto, e de muito mais, é do estado, no dizer da outra componente de pobres que afundam cada vez mais o país. São aqueles que não pagam impostos, que mandam o dinheiro lá para fora, que não conhecem regras de conduta e ainda se reclamam de vítimas da incompetência de quem lhes descobre a vigarice.
A culpa é, realmente, do estado, porque não consegue resolver estas e outras anomalias de que enferma a nossa pobre sociedade que, no entanto, insiste em exigir vida de rica, sem olhar à riqueza que não aceita produzir. A responsabilidade do estado está, precisamente, na excessiva tolerância que, de há muito, permite intoleráveis abusos e criminosas atitudes que têm ficado impunes.
Se tal não acontecesse, como não acontece em muitos outros países que os abusadores tanto gostam de citar, o nosso seria, no mínimo, um país de remediados, que poderia cuidar de outro modo mais justo, dos verdadeiros pobres que não têm mesmo hipótese de ter uma vida decente.
Somos um país pobre, é verdade, mas por culpa dos governos que não souberam cuidar de alguns ricos: os pobres de espírito, os pobres sem consciência, os pobres que não sabem o que é solidariedade, os pobres que têm a língua suja e os pobres que desprezam os mais elementares deveres de vivência em sociedade. E, cuidar desses pobres era, simplesmente, metê-los na ordem. Pode tardar mais ou menos tempo, mas é inevitável que alguém acabará por ter a coragem suficiente para o fazer.
Depois, seremos um país menos pobre, com muito menos pobres.