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afonsonunes

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20 Jan, 2013

Segurismo

 

O segurismo é a arte de um sonhador pretender passar por entre os pingos da chuva sem se molhar, se possível, com toda a segurança e a esperança de que o sol brilhará, mais tarde ou mais cedo, para abrilhantar o seu futuro.

Não sei se haverá quem sonhe tanto, nem sei se quem sonhar assim, anda a sonhar enquanto dorme, ou acordado, enquanto vai dando voltas ao país, para manter viva a chama de todos os que acreditam na sorte que lá vem.

Numa primeira etapa, esse sonhador foi espalhando a sua doutrina pelas vilas e cidades do país, sem adesão ou confronto com a doutrina dominante, como se fosse um anjo, ou um anjinho, que apenas queria pregar uns sermões divinos.

Teve realmente a proteção divina quando ficou sozinho no templo do país a pregar a uma multidão de desamparados. Agora, sempre muito seguro, sem arriscar nada nas suas rezas, continua à espera que outro santo caia do altar.

Este santo, pregador do pedrismo, encontra-se em alto risco de já não ter a bênção do seu deus, nem a tolerância dos diabinhos que tanto têm esperado a possibilidade de um milagre, ainda que bastante castigador.

É neste ponto que uns pensam que o pedrismo nunca será substituído pelo segurismo, enquanto outros estão convencidos que o segurismo nunca seria pior que o pedrismo. Mas, muitos ainda, dizem que venha o diabo e escolha.  

Inicialmente, o segurismo assentou as suas bases na teoria de não fazer ondas, para não criar afogamentos. A seguir, sempre recusou falar de afogados, para não ir na onda. Agora, encontra-se a boiar entre salvos e afogados.    

Enquanto vai boiando, o segurismo conseguiu agarrar-se à boia que o vento de maré lhe trouxe à mão: o apoio presidencial a algumas das suas pregações, retribuídas pelo apoio do segurismo a algumas das teses presidenciais. 

Este tacticismo político nem sempre tem caído bem neste mar, que bem parece estar a gerar um tsunami qualquer. Sobretudo, porque se fala muito do que se diz que não se quer. E o pedrismo vai tremendo cada vez mais.

Por seu lado, o segurismo entrou em rota de afogamento, ao vislumbrar um pote que, devia sabê-lo, não está, nem estará ao seu alcance. Se adotasse uma tática inteligente, não devia querer repetir a estratégia que foi do pedrismo.

É tão fácil falar de correntes que não vão desaguar a lado nenhum. A corrente do Pedro, se chegar às páginas da história, será pela má memória que deixará neste povo que teve muito azar, sempre que teve de procurar um salvador. 

A corrente do Seguro nunca passará de um regato de águas límpidas que, ao atingir o ribeiro, logo fará parte da corrente normal que tem feito a história da hidrologia política do país. Portanto, segurismo, é coisa para esquecer.

Mas, que fique bem claro, há algo que me diz que há muito mais para esquecer, neste momento crucial da nossa vida coletiva. Os ‘ismos’, de há muitos anos para cá, deram-nos isto que temos. É bom não esquecer.