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afonsonunes

afonsonunes

01 Dez, 2008

Multi-mudanças

 

Já tinha reparado há muito tempo que um certo tipo de pessoas não gosta, nunca gostou, nem nunca vai gostar de mudanças. Estou mesmo tentado a dizer porquê, embora possa correr o risco de ouvir desabafos de quem pensa que eu próprio nunca mais mudo, nem que seja para pior, isto é, habituar-me a estar quieto e calado. Daí, podem tirar o sentido e, se quiserem esperar, bem podem esperar sentados, se possível, com muita tranquilidade…
Pois bem, esse tipo de pessoas que detestam mudanças, têm a fobia do medo, que é uma coisa que assusta verdadeiramente quem está bem. Basta referir que só tem medo de mudar de casa, quem estiver bem instalado e tiver de mudar para uma que não conheça. Mas, se ao mesmo tempo, esse tipo de pessoas medrosas tiver de mudar de ideias, de hábitos, de vícios, de mentalidade e até abdicar de manias simples ou complicadas, então temos aí uma confusão dos diabos instalada na mais sã das moleirinhas.
É difícil encaixar que o mundo muda a todo o instante, por motivos que ninguém consegue controlar, motivos para os quais os próprios medrosos contribuíram. Essas mudanças, como não pode deixar de ser, obrigam a que tenhamos de nos adaptar a novas realidades, ainda que obriguem a grandes transtornos nas nossas vidas. Desvalorizar isso é estar a meter a cabeça debaixo da areia, ou estar a deitar areia para os olhos dos outros, como se isso amenizasse ou resolvesse alguma coisa.
Podem e devem discutir-se as mudanças e a melhor maneira de as levar à prática, mas é totalmente insensato querer que nada mude, ou, o que vai dar no mesmo, querer adiar tudo, passando a exigir discussões consecutivas, sem que digam concretamente o que querem. Sim, porque não basta dizer apenas o que não querem.
Andam por aí muitos candidatos a salvadores da pátria, mas verificamos facilmente que nunca salvaram nada nem ninguém, antes contribuíram, muitos deles, para o estado em que nos encontramos agora, com as suas decisões, ou com a defesa de interesses que apenas os beneficiaram a eles e a quem com eles comungava dessas decisões. Convém que esses candidatos não esqueçam que o tempo e a história não deixarão de referir com toda a clareza, quem andou, e ou, quem anda a mentir aos seus concidadãos.    
É muita mudança, é verdade, mas também é verdade que quem mais vemos na rua e na comunicação social, são muitos dos grandes privilegiados de muitos anos, a quem a pobreza nunca comoveu, nem os leva agora a compreender um pouco de solidariedade para com ela. Sempre estiveram mais preocupados com a sua imagem de egoísmo e superioridade, com o reconhecimento alheio que nem sempre souberam merecer, ou confundiram com o seu dever cívico, humano e profissional, de cujos resultados ainda estamos a pagar o preço de uma menoridade que nos humilha.
Pensam que a razão deles se justifica pelo número, mas é muito maior o número daqueles que têm outra espécie de razão. Depois, quando as razões se chocam, também se chocam muitas asneiras, mesmo nas bocas mais qualificadas de alguma gente ilustre.
Talvez a multi-mudança afecte os sentidos, mas nunca justifica a asneira, ainda que colectiva, e ainda que bastante glorificada, seja lá por quem for.