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afonsonunes

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Não é propriamente a grande muralha da China, mas nós também temos uma coisa desse género, a que podemos chamar um muro, mais consentâneo com a dimensão do país. Quero frisar bem, que falo da dimensão geográfica e não da dimensão moral, cultural ou até intelectual, das pessoas que embatem nos dois lados do muro que as separa.
O nosso muro também não tem nada a ver com aquele que caiu há anos. Esse caiu, pronto, caiu e nunca mais se levantou. O nosso, nunca caiu e, tal como nas obras de cá, vai-se acrescentando mais umas fiadas de tijolos e, assim, o muro lá vai crescendo, ainda que seja clandestinamente. Este é um bom indicador da nossa capacidade de iniciativa, movida por inteligências activas, quase sempre reactivas às limitações legais, que cerceiem a criatividade escondida.
Não é nada agradável olhar em frente e esbarrar com um muro que nos impossibilita de ver o que está para lá dele. Mas também impossibilita que quem esteja do lado de lá, veja o que nós temos de bom ou de mau na nossa zona. Porém, há sempre alguém que consegue subir o muro e se coloca na posição estratégica de observar o que se passa dos dois lados desse mamarracho construtivo, quer ele seja de pedra, betão, tijolo ou até de aço, como já em tempos tivemos uma muralha.
Vejamos o que aconteceu com ele. Arranjou uma cadeira rotativa e sentou-se nela, lá em cima do muro. Assim, olhava para o seu lado direito e tinha a sensação de estar no alto do muro das lamentações, onde todos abanavam a cabeça repetidamente, como se quisessem deitar o muro abaixo à cabeçada. Depois, olhou para o seu lado esquerdo e viu gente que o olhava com raiva, que cuspia ódio para o ar, que assobiava e gritava aqueles piropos próprios de quem sabe que pode desopilar livremente.
Como a cadeira dele era rotativa, olhou para trás e viu que as pessoas dos dois lados do muro, apresentavam poucas diferenças, sinais de que a evolução das suas vidas, para além de vestirem pior e de serem uns anitos mais novas, ia no sentido da febre do muro, sempre em luta cerrada com ele, observador da cadeira, e com ele, muro, no cimo do qual estava o inimigo figadal das duas bandas largas murais, com alta fidelidade sonora.
A cadeira rodou cento e oitenta graus e lá estava ele a olhar para a frente, como que divisando onde seria o fim daquele muro. Contudo, havia um nevoeiro cerrado que não permitia adivinhar se havia muito ou pouco muro, nem tão pouco imaginar se havia gente dos dois lados, apenas num deles ou, se o muro e as pessoas iriam simplesmente deixar aquele local. Era uma incógnita que ele não podia decifrar naquele momento. Mas, depois de reflectir por instantes, respirou fundo, chamou a si os restos de coragem ainda armazenada e decidiu que o destino estava precisamente na direcção do nevoeiro.
Porquê? A explicação veio de imediato e em primeira instância para si próprio. Para trás, é o passado, para muitos a saudade mas, pensou ele, a saudade não mata a fome a ninguém. Para o seu lado direito, só havia lamentações, ilusões e sonhos, com algumas saudades também, principalmente, do ‘el dorado’ de uns e do fim da mama para outros. Para o seu lado esquerdo, bem gostava ele de dizer a quase tudo que sim, mas… Só que não sabia a quem pedir o dinheiro que isso custava, mas sabia que não eram os do seu lado esquerdo que lhe garantiam um único cêntimo.
Pois é. Ele não sabe muitas coisas e eu também não. Só sei que o nevoeiro está aí, à minha frente, e não sou eu que vou deitar-me a adivinhar se o caminho escolhido foi o melhor. Teremos de esperar que o nevoeiro se dissipe. Depois, veremos. Temos o quê? ... Ah, sim, também pensei nisso, obrigadinho.