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afonsonunes

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02 Abr, 2013

MAS QUE SECA

 

Vai por aí água que nunca mais acaba, pelo menos nos tempos mais próximos, o que também é uma ajuda, triste ajuda, para quem já não conhece motivo algum para pensar numa vida normal, sem prejuízos em cima de desgraças.

Para a maior parte dos portugueses, as suas vidas transformaram-se numa seca incontornável no meio de tanta água, seca que lhes é imposta pelos homens que comandam os seus destinos, mas também pelos deuses das intempéries.

Certamente que nesta seca insuportável, não se morre de sede, mas pode morrer-se de fome, se houver quem, teimosamente, continuar a meter água, a acrescentar à água que desapiedadamente não para de cair dos céus.

Não podemos falar de crueldade dos deuses que não preservam a nossa segurança e o nosso bem-estar, por respeito à nossa condição de seres sujeitos às regras da divina natureza, ainda que por vezes tão injustas nos pareçam.

Mas, bem podemos falar da rude crueldade praticada por todos os homens e mulheres que desviam o olhar da miséria, ignorando-a, consentindo-a, ou provocando-a, sem que sintam minimamente a vergonha dos seus atos.

Para esses, a vida não é uma seca. É antes uma encharcada de ódios misturados com prazeres sádicos, num mar de discriminações, perseguições e simulações, quantas vezes sob a capa de pretensas orações.

Estas chuvas quase diluvianas, que parece servir apenas para agravar a crise de muita gente que vê destruídos os seus bens, têm também a utilidade de limpar as cidades e as serras, os rios e os campos, que tantos persistem em sujar.

Mas, há sempre alguma sujidade que fica agarrada a quem nem sequer se deixa molhar no meio das intempéries. Essa sujidade chama-se maldade congénita, hipocrisia sistémica, falta de vergonha intratável.

Os deuses bem se esforçam por mandar muita água para que todos se lavem como devia ser. Tal como se esforçam por mandar umas secas periódicas para fazer lembrar como a água é preciosa. Mas há gente que é mesmo uma seca.