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afonsonunes

afonsonunes

05 Dez, 2008

Quem muito fala

Diz-se com toda a razão, que ‘palavras leva-as o vento’ e se houver alguém que duvide dessa verdade, só tem que fazer a experiência. Faça como aquelas pessoas que já não têm quem lhes suporte a conversa, tendo de entreter-se a falar sozinhas. Como não podem mastigar as palavras, ainda que sejam mesmo tenrinhas, também as não conseguem engolir. Mas elas somem-se no ar e desaparecem num instante. Foi o vento que as levou.

Portanto, não há o perigo de congestão do falador, mas há o inconveniente da saturação do seu ouvidor, se acaso ele existir. A troca de palavras é um saudável exercício dos seres humanos que, no entanto, têm de ter muita ponderação, para não caírem no desperdício da sua utilização, ou na sovinice do seu silêncio, que pode bem ser enervante e denunciador de mau feitio.   
Depois, há a possibilidade de, quem muito fala, falar mal e depressa, isto é, deixar escapar aquelas insolências, ainda que involuntárias, mas que não deixam de ser incluídas na categoria de asneiras, algumas bem asininas, impróprias mesmo de serem indevidamente roubadas aos seus legítimos utilizadores de quatro membros no chão.
Quem muito fala não tem problemas em encontrar assuntos que lhe garantam o inesgotável funcionamento da tramela, quer seja ao serviço da vulgar bisbilhotice, quer vá ao fundo da memória à procura de qualquer coisa que já viu, ouviu ou leu, a fim evidenciar ideias ou iniciativas que não teve o condão de criar.
É assim que quem muito fala acaba por transformar-se, frequentemente, em papagaio que baloiça no cordel, enquanto vai abrindo o bico, depois de ter aberto os ouvidos de par em par, captando os sons que a seguir solta no ar, e que o vento se encarregará de espalhar. É esta a conversa de papagaios vulgares que, mal ouvem um rumor, logo fazem um alarido que dava e sobrava para uma infindável novela, onde a moda da época impõe que tem de haver mais vilões que heróis.
O mínimo que devia exigir-se a quem muito fala, era que fosse capaz de tirar da sua cabeça umas coisitas, mesmo simples, com graça ou sem ela, visto que o talento não anda por aí aos caídos. Quantas vezes a originalidade da conversa sem pretensões, supera as grandes tiradas de acontecimentos relatados, notoriamente copiados e expelidos pois, tanto o gosto como a paciência de quem ouve, podem não ser compatíveis com os grandes contadores de secas insuportáveis, até pela sua repetição.  
Sinceramente, sem querer revelar aqui se sou muito ou pouco falador, faço uma associação de ideias daquilo que me sai da boca e das palavras que me saem da ponta dos dedos. Penso então na dificuldade em encontrar motivos para não me considerar papagaio, ao abordar coisas tão simplórias, como muitos dos pensamentos que ficam a pesar neste espaço, em lugar de saírem boca fora, rumo ao vento que me fustiga as faces e lhes daria o destino mais consentâneo com o seu real valor. Mas, paciência, quem tem vícios…
Contudo, estou satisfeito, porque hoje não derivei para a má-língua da moda.