MARÉ LARANJA NEGRA
Durante largos anos a investigação criminal do país dedicou-se quase exclusivamente à procura de meliantes de rosa ao peito. E as caçadas foram-se multiplicando com cercos a produzirem resultados quase todos os dias.
Nem vale a pena enumerá-los, tantos eles foram e bem conhecidos. Entretanto, os anos passaram, as investigações terminaram e de resultados concretos, muito pouco, para não dizer nada de especial. Uma deceção.
Ouvem-se muitas queixas populares de que a justiça não quis fazer o que lhe competia. Obviamente, meter na sombra os investigados. Como se a justiça, com todos os defeitos que se lhe reconhecem, pudesse fazer uma coisa dessas.
Entretanto, eis que surge a maré laranja, não com a cor clarinha dos citrinos naturais, mas como uma mancha negra que denuncia uma podridão que escureceu repentinamente o que se pensava ser o contrário de rosas murchas.
De há uns tempos para cá, essa maré laranja negra tem-nos surpreendido de tal maneira que já não se estranha a quantidade nem a qualidade dos casos que vão surgindo em catadupa, agora a minar o próprio governo das verdades.
O mais curioso desta constatação é ver que as rosas consideradas murchas, lá vão continuando de pé, enquanto as laranjas que pareciam intocáveis, brilhantes e suculentas, já começaram a cair e vão continuar a cair de podres.
Como diria a sabedoria popular, são os alcatruzes da nora que, ora sobem cheios, ora descem vazios, enquanto houver água no poço onde está instalada a nora. E a perspetiva é de que ela vai faltar para a rega de rosas e laranjas.
A propósito de noras, não me sai da ideia a imagem da justiça que, por vezes, lembra o burro de olhos vendados à volta da nora. Mesmo de olhos vendados, o burro conhece bem a voz do dono e só pensa que dali vai para a manjedoura.