Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

 

 
Há comichões verdadeiramente incómodas que obrigam a um esforço enorme de contenção, ou a um desaforo de coçar tudo aquilo que faz vibrar o corpo ardente. Isto aplica-se em relação às vulgares comichões, de vulgares cidadãos, que muitas vezes nem têm tempo para se coçar, quanto mais para fazerem parte de outras comichões colectivas que podem ter como última finalidade a complicação dos seus ardores.
Há uma tendência interessante para criar comichões quando a pele de certos indecisos, (que não sabem para que lado se hão-de arranhar com as unhas cortadas rentes), começa a ficar assim uma espécie de pele de galinha que já esticou o pernil e á qual também já arrancaram todas as penas, verdadeiramente à bruta. O desejo de ver criadas quanto mais comichões melhor, dá-lhes o conforto de não correrem o risco de se enganarem em questões de mais melindre, como é o caso do sítio onde devem coçar com mais intensidade e decisão.
Chegou agora a moda das comichões de sábio e eu, que não gosto nada de indecisos e de indecisões, resolvi chegar-me à frente e dizer aqui estou eu, para me assumir como um sábio que não nega as suas próprias comichões. Peço desde já o favor de não me considerarem um sábio daqueles que, depois de coçarem uma comichão, são logo acusados de terem criado outros pruridos ainda piores, só porque coçaram apenas com uma das mãos. Para uns, com a mão direita, para outros, apenas com a mão esquerda.
Parece-me que tenho todas as condições para vir a ser presidente de uma comichão de sábio. Em primeiro lugar, porque não sendo canhoto, também não uso apenas a mão direita logo, posso perfeitamente coçar com qualquer delas. Em segundo lugar, porque sendo um simples desconhecido, não estaria sujeito àquelas pressões violentas que recaem sempre sobre os normais presidentes de comichões de sábios. Em terceiro lugar, porque chegando eu ao importante cargo de presidente de uma comichão de sábio, não tinha de exibir credenciais iníquas, para além da minha ‘sabidoria’ de topa tudo, muito atento, venerando e obrigado.
Já agora, não posso deixar de esclarecer os mais cépticos que, do meu curriculum, constam atributos extremamente importantes para juntar (até pode ser num jantar) litigantes demasiado legalistas, e litigantes que se estão marimbando para toda e qualquer lei. Por exemplo, se o legalista diz que tem a razão da lei, corto imediatamente essa lei. Se o outro litigante insiste em que a lei é injusta par ele, corto de igual modo essa lei. Assim, as leis deixam logo de ser problema e eles já podem conversar.
Não quero deixar de referir que quase todos os sábios são professores de alto gabarito dentro da sociedade intelectual. Por outro lado, todos os professores são, nos dias de hoje, sábios de renome e créditos indiscutíveis nas ruas da amargura nacional. Eu, sábio de comichões indiferenciadas, nem sequer sou professor, mas fui um daqueles alunos aos quais atiram à cara, a toda a hora, que estão ainda na cauda da Europa.
Contudo, ainda há bem pouco tempo, fui convidado por outro aluno da minha geração de rascas, para substituir um dos sábios dos serões da TV de domingo, ou segunda-feira. Ora eu, que já sou sábio de comichões, não me baixo a esse nível. Se quiserem ter a honra da minha colaboração, terão de aceitar que vou substituir os dois e, então, lá estarei, atento, venerando e obrigado, no domingo e na segunda, ao vosso dispor.
Por mais que me coce, esta maldita comichão não me larga.