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afonsonunes

afonsonunes

08 Dez, 2008

Volto já

 

 
Peço imensa desculpa pela demora, mas agora já cá estou. Em boa verdade só fui, e fui só, dar uma olhadela pelas gordas dos jornais desta manhã. Ainda não o tinha feito, porque não queria chegar atrasado à reunião, onde nunca tive a intenção de comparecer. Mas, a vida é assim, mesmo para mim, que tenho o bom hábito e a salutar intenção de ser eu a ditar as regras da minha conduta mas, principalmente, as regras da conduta de quem lida comigo. Quis dar a ideia de que sabia dialogar logo, contrariado, lá fui.
Voltando um pouco atrás, (cautela que isto não é um recuo), fui constatar que todos os jornais enchiam as primeiras páginas com a fotografia da minha cara. E, curiosamente, aparecia ao lado, ou por cima, a palavra nogueira, uma espécie de madeira de boa qualidade. Não sei porquê, logo associei essa madeira à cama onde durmo, que por sinal, até já chia um bocado. Nos jornais, nem todas as fotografias me favoreciam muito, principalmente, no sorriso e no bigode. Mas, a nogueira é que me deu mais no goto.
Voltemos atrás, à reunião, porque o resto são pormenores que não me devem distrair, senão ainda acabo por esquecer os ‘pormaiores’, com que vão querer bombardear-me na reunião. Ao chegar entre a porta, reparei logo que não tinham colocado a passadeira vermelha para eu limpar os sapatos. Fiquei logo de pé atrás e parei. De dentro, uma voz pretensamente doce de mulher mandou-me entrar. É verdade! ... Mandou…
Voltando atrás, fiquei tão vermelho como a passadeira que não havia. Quase tive um acesso de fúria, mas contive-me a custo, enquanto me assaltava uma enorme vontade de chiar, pois à minha mente, apenas veio a madeira de nogueira dos jornais e a confortável cama onde costumo dormir. Alguém estava a mandar em mim! ... Logo à entrada! … Eu, às ordens… Não. Não podia ser. Isto de mandar em mim, não é de quem tem vontade de dialogar, pois se alguém tiver que mandar, sou eu… E só eu! ...
Voltando um pouco atrás, (peço desculpa, mas tudo vem de trás), estou mesmo a ver as primeiras páginas dos jornais de amanhã, a falar da madeira de carvalho e de uma mulher de voz pretensamente doce, provavelmente, com as duas fotografias em lugar da minha cara. Com certeza, toda a gente está a imaginar a cara com que eu ficava. Que os jornais não falem da madeira de nogueira, ainda vá lá, mas então também não admito que falem na madeira de carvalho, e muito menos dessa mulher que me queria mandar entrar. Ali, só havia uma hipótese. A mulher, calada, esperava que eu dissesse que ia entrar, por minha iniciativa e de livre vontade, conforme manda a lei que eu adoptei para a minha conduta.
Voltando atrás mais uma vez, é preciso ter em conta que ela, intransigentemente, e autoritariamente, que me manda entrar assim, tem de reconhecer que não vai dormir tranquila, quer a cama seja de madeira de carvalho, ou de madeira de nogueira. É preciso não ignorar que são duas madeiras de excelência que, se fossem gente, teriam a maior, a melhor e a única avaliação de jeito que jamais se fez no país e no estrangeiro.
Voltando atrás, finalmente, fiquei entre a porta de entrada da reunião, durante dez segundos, uma eternidade para a minha paciência. Depois, dei meia volta e voltei à rua.
Nem sequer me lembrei de dizer: Vou fazer a minha cama de nogueira, onde logo me vou deitar de consciência tranquila. Volto já.