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afonsonunes

afonsonunes

10 Dez, 2008

Labirinto

 

 
 A vida é um autêntico labirinto, principalmente, para quem não gosta de jogar às escondidas. Para quem gosta, um ou outro labirinto até pode dar jeito, para mais facilmente encontrar um esconderijo que lhe facilite o mau hábito de se evaporar das vistas alheias, enquanto dura o seu trajecto mais ou menos escabroso.
 
Estou a imaginar um sujeito, sujeito às contingências da vida tal como eu, daqueles que aparece muitas vezes em público, a avaliar pela quantidade de ocasiões em que deparo com ele na minha frente. Apesar de me parecer baixo, mesmo baixinho, noto que se salienta no meio de uma multidão, devido ao seu jeito peculiar de se exprimir, enquanto se estica o mais que pode em bicos dos pés, para mostrar o penteado liso de ambos os lados do carreiro, que lhe racha a cabeça em duas partes desiguais. Na parte maior, armazena as agruras da sua missão espinhosa de dizer mal do que está bem.
 
E o pior é que ele sabe disso. Não me surpreende que essa parte maior da cabeça esteja um autêntico labirinto, onde todos os caminhos conduzem inevitavelmente à confusão. Quando procura uma saída, invariavelmente, depara com uma entrada, pelo que toda a marcha que desenvolve no labirinto, é como se tivesse estado a marcar passo, martelando o chão, sempre com os pés no mesmo sítio.
 
O chão do seu pensamento, é um chão que já deu uvas, mas agora nem parra dá, apesar daquela parte maior da cabeça, ter vantagem no tamanho proporcional ao resto do corpo. Mas, aquilo é um labirinto enorme, onde as ideias nem sequer atinam com a entrada, resvalando para a parte menor, que fica do outro lado do carreiro, onde até o cabelo liso é mais curto que as ideias tresmalhadas.
 
Ora, as ideias ao chegarem ali, ficam inevitavelmente atrofiadas, devido ao espaço exíguo que lhes está destinado, acabando por definhar, antes de conseguirem passar para o outro lado do carreiro bem vincado no couro cabeludo. Aquele carreiro na cabeça é a fronteira entre a confusão e a letargia. A confusão faz com que todos os ouvidos fiquem surdos perante tanta conversa inútil, enquanto a letargia imobiliza todas as boas e más ideias que ali ficam comprimidas.
 
A culpa talvez seja do carreirinho que lhe atravessa a mona, em jeito de labirinto, qual carreiro de formigas extintas pela aridez desértica do solo onde está implantado. Ali, não se vislumbra um pequeno oásis, apesar de tantas vezes imaginado e anunciado como a desejada vitória de quem sabe que já está derrotado há muito tempo.
 
Tal como as alucinações no deserto, alguns labirintos também provocam miragens onde se imaginam carreiros paralelos, com destinos diversos, mas aqui, a miragem termina invariavelmente num afogamento nas águas profundas da ignorância e da falta de respeito pela inteligência daqueles a quem pretende ensinar o que não sabe.   
 
Não! ... Isto não é uma fotografia do meu álbum de recordações. É apenas um esboço bastante tremido, que agora recordei.