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afonsonunes

afonsonunes

11 Dez, 2008

O cinema dos pobres

 

 
A rua é um mundo complexo de onde emanam sentimentos generosos, tal como pairam ameaças no ar, ou se pressentem agressões de todos os tipos. Às vezes, a rua não passa de uma selva onde a ferocidade e a ganância transformam as pessoas em predadores não muito diferentes dos que vivem nas planícies e nas estepes mais longínquas. As vítimas são sempre as espécies que não se metem com ninguém, que apenas lutam pela vida e, muitas vezes, pela própria sobrevivência.
 
Na rua há coragem e cobardia, tal como há fortes e fracos, valentes e medrosos, todos misturados, de rostos crispados ou descontraídos, correndo apressados ou passeando calmamente, como se o tempo não estivesse ao dispor de todos do mesmo modo. Os relógios de uns e de outros trabalham ao mesmo ritmo, mas o ritmo da vida de cada um, é bastante diferente, o que faz com que lhes pareça que os ponteiros de uns, são lebres à frente de galgos, enquanto outros parecem caracóis semi-congelados debaixo da casa que transportam. Na rua, há cabeças carecas que prenunciam ideias geladas e cabeças revestidas de fartas cabeleiras, onde parece adivinhar-se o calor das ideias ferventes.
 
No meio do ruído intenso do tráfego, há quem caminhe em silêncio, como se nada existisse à sua volta, e quem converse animadamente, parecendo querer mudar o mundo e todos quantos nele se movimentam. A rua tem o seu poder. E há quem pense que o poder legítimo está precisamente na rua e se sobrepõe a todos os outros poderes. O poder da rua é associado à ideia de povo, do povo que mais ordena, mesmo quando é evidente que outro povo, está a ser desrespeitado e contrariado, contra os mais elementares princípios da democracia. A rua pode ter o seu poder, o poder mobilizador e esclarecedor daqueles que se julgam capazes de o exercer, mas apenas com o objectivo de, no momento próprio, conduzir ao voto que realmente tem o poder decisivo.
 
Efectivamente, um pouco por todo o mundo, e por cá também, há uma certa generalização do poder da rua, uma tendência manifestada por uns tantos líderes de qualquer coisa, alguns tão usados e passados, quanto outros de cueiros ainda mijados. Todos, convencidos que só eles têm cabeça para ditar regras, impor vontades, nomear ou demitir governos e governantes. E falam repetidamente em nome do povo, como se esse povo lhes tivesse passado procuração para levarem a cabo os seus desvarios. Não se podem confundir milhares de manifestantes com milhões de votantes. Por muito que lhes custe admitir, esses milhões também são povo, embora muitos deles não gostem muito de ruído.
 
O que mais choca em muitos pseudo-democratas é a sua capacidade para baralhar argumentos, dando aos factos versões completamente erradas e maldosas, demonstrando uma falta de seriedade tão grande como a cobardia de não assumirem claramente as opções que defendem e proclamam encapotadamente, por reconhecerem interiormente a sua inviabilidade. Por isso gritam na rua desalmadamente, chamando por seguidores que gostam de sair à rua, só porque não gostam de estar em casa. Não importa que sejam miúdos que sentem o sortilégio de aparecer na televisão, ou idosos que apenas vão sentir o conforto de se verem no meio de muita gente, fartos que estão da falta de companhia e da solidão que, cada vez mais, vão encontrando nas suas casas.
 
Também não importa que sejam arruaceiros ou até criminosos que aproveitam na rua, todas as oportunidades para atingirem os seus desígnios. A rua sempre foi e é, um lugar maravilhoso quando nela podemos passear sem constrangimentos, sem atropelos, sem agressões, nem tão pouco com segundas intenções. É uma pena quando não possamos encontrar na rua o prazer do convívio, a alegria de ver sorrisos naturais, ou a felicidade de ver nela a alternativa única à tristeza de termos de estar fechados em casa com a porta trancada
 
A rua é, e sempre será, o lar dos desprotegidos e dos excluídos, o emprego dos vadios, mas também o passeio dos cães de trela, a espera do engate, ou o local de todos os encontros. Enfim, no fundo, a rua também será sempre o cinema dos pobres.