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afonsonunes

afonsonunes

13 Dez, 2008

Quem quer ser rico

 

 
 
 
 
Se eu tivesse cinco ou seis milhões, não tinha problema nenhum em dizer a toda a gente e em qualquer lugar, que era um homem rico. Ainda que fosse em frente dos sorrisos de contemplação de uma grande entrevistadora da TV. Como não sou rico, posso dizer que vivo ‘mais ou menos’, que trabalho ‘mais que menos’ e que como ‘menos que mais’.
Tudo isto, porque não tive a sorte de me saírem os tais cinco ou seis milhões no ‘Euro ditos’, nem tive a felicidade de encontrar um dos tais ‘não ricos’ que me convidasse para seu sócio, com uma quota-parte ‘mais ou menos’ do valor acima referido.
Tenho andado a pensar em exigir uma audição na AR para poder exprimir toda a minha indignação por tamanha pouca sorte ou, se isso não for viabilizado por alguém que ganhe menos que eu, ao menos que me mandem desabafar para a Ju que, estou certo, me tratará melhor que à Lu.
Quero que fique bem claro, que eu não pretendo ser rico. Só quero viver bem, o que implica, desde logo, trabalhar pouco ou nada, e comer mais que o suficiente para me manter confortavelmente sentado no gabinete de descanso. Quem disser que isto é pedir muito, é porque nunca se governou, nem nunca governou ninguém.
Realmente, eu não gosto mesmo nada dos ricos, porque esses não sabem o que têm, mas sabem que é uma vergonha andar a contar milhões, do mesmo modo que os pobres contam os cêntimos na palma da mão, deitando contas a ver para o que dá. Os ricos não precisam de olhar para a mão. Basta-lhes levantar um dedo e, às vezes, um simples revirar de olho resolve o problema.
Por causa desta simplicidade tão complicada, é que eu não gostava mesmo de ser rico. Gosto de meter a mão ao bolso e tirar uns trocos para pagar o cafezito na baiuca do costume, ou tirar da carteira uma notita de cinco euros, quando o rei faz anos, para regar o café com uma amarelinha. Tem piada, nesses dias, aparece sempre alguém a meu lado e pergunta se faço anos, ou se agora ando a armar em rico.
Agora, imagine-se que eu aparecia com cinco ou seis milhões de um dia para o outro. Lá, na baiuca onde costumo tomar café, eram logo capazes de dizer que eu já tinha sido ministro e não tinha dito nada a ninguém. Sim, é preciso conhecer a má-língua desta gente, para estarmos prevenidos, sobretudo, se não lhe pagarmos o café de vez em quando. Ainda por cima, corremos o risco de aparecer um ou outro energúmeno e encher-nos os ouvidos com uns piropos, do género, vigarista, gatuno, ladrão.
Ora, pela minha parte, acredito piamente que toda a gente é séria, mesmo os ricos todos do mundo. Senão não havia tantos pobres à volta deles, a fazer vénias, a sorrir-lhes, a pedir-lhes qualquer coisinha, se apanham os seguranças distraídos. Sim, os pobres precisam dos ricos, senão talvez até nem fossem pobres. Seria uma tragédia, para os ricos, obviamente.
É caso para perguntar, porquê tanta conversa fiada se, afinal, já ninguém diz que é rico.