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afonsonunes

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É um direito que assiste a todos nós, conseguir pôr a conversa em dia. Ora, essa tarefa só se concretiza se nos pusermos a falar com quem possa enriquecer-nos com o que não sabemos, por troca com aquilo que sabemos e estamos dispostos a fornecer. Há quem chame a isto uma partilha de informação, ainda que se trate de uma escala bi pessoal ou mesmo grupal, com maiores ou menores dimensões.
Nós falamos, como gente civilizada, ou como patetas enfurecidos por qualquer arrufo de ciumeira tonta, mesmo que não se trate de amores traídos, ou supostamente traídos. Nós falamos muitas vezes por causa de uma doença a que os curandeiros dão o nome de dor de cotovelo, com muitas semelhanças a outra doença muito grave, chamada inveja. Estas doenças existem, mesmo em locais que nem dava para imaginar.
Eles falam, ainda que nem sempre haja quem esteja disponível para os ouvir. Têm uma grande apetência, quando falam entre si, para tentar convencer-nos a acreditar naquilo que nós já rejeitámos, quando falamos uns com os outros, sem a presença deles. Porque eles falam muito longe dos locais onde nós falamos. Talvez por isso, eles não nos entendem, nem nós os entendemos a eles. Ainda que sejamos obrigados a ouvir-nos uns aos outros, por causa de terceiros que não se calam dia e noite. Mas, já anda tudo surdo.
Nós falamos na rua, nos empregos, nos cafés, nos locais onde se compra ou se vende qualquer coisa. Nos locais onde se trabalha, muito, pouco ou nada, ou nos locais onde se curte o ócio dos que não podem, ou não querem trabalhar. Eles falam uns com os outros na Assembleia. Quase sempre estão a falar de nós. Como se nós fossemos importantes para eles. Sim, na medida em que querem o nosso voto para que ali permaneçam por muito tempo e muito bem instalados. Não, na medida em que os nossos interesses não são os interesses deles. Porque nós, somos muito diferentes, aos olhos de cada grupo deles. Sim, porque eles têm sempre um ou dois, que falam pelo grupo a que pertencem.
Quando eles não falam de nós, nem deles próprios, falam dos seus antecessores ou de quem apoiaram em tempos mais ou menos distantes. Uns ainda fazem vénias, outros assanham-se. Uns querem falar deles e daquilo que eles fizeram, outros querem que sejam as policias a investigar-lhes o passado. Normalmente glorioso, para uns, vergonhoso, para outros. Começa logo aí uma longa batalha verbal, tentando esconder aquilo que não querem que se saiba mostrando, em seu lugar, um longo rosário de conversa fiada para distrair quem os possa censurar.
Nós sabemos que, das conclusões deles, nada se conclui, porque nunca aprovam coisa nenhuma, mesmo quando para nós as coisas são evidentes. Nós só não percebemos por que razão eles não preferem que sejam as policias a investigar, a falar e a levar à justiça quem meteu a mão onde não devia, ou meteu o pezinho na poça.
Eles falam de muitas coisas de que não querem consequências. Nós falamos de muitas coisas de que somos nós a sofrer as consequências.