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afonsonunes

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20 Set, 2013

Sim, comandante!

 

 

O comandante deu a boa nova à tripulação, depois de longa permanência no fundo do mar profundo, onde até os mantimentos começam a faltar, sem que se possa pescar uma alforreca, ao menos para encher a vista.

A tripulação sabia que estavam todos naquele aperto, rodeados de água escura por todos os lados, menos um, o do fundo, porque o comandante, teimoso que nem portas, insistiu em seguir uma rota desastrosa.

O nosso comandante anunciou agora pomposamente a saída do fundo. A tripulação, naquela luz mortiça interior, olhou à sua volta e não viu nada de novo. Nem sequer sentiu um abanãozinho da mudança de posição.

No entanto, alguém perguntou ao comandante onde estavam agora. A resposta não se fez esperar. Estamos quase, quase, no fundo. Mas um dia, se Deus quiser, havemos de chegar lá acima e respirar ar novo.

Já não temos quase nada, meu comandante, insistiu o interpelante, como é que chegamos lá acima e quando? O comandante pôs-se na posição de sentido e, engrossando a voz, disse, já saímos do fundo.   

Sim, meu comandante, disse o interpelante, também em sentido. Era sempre assim. O comandante fala e a tripulação come e cala. Só que a despensa estava vazia. Não havia nada para comer. Mas havia que calar.

As perspetivas eram realmente muito sombrias. O submarino tinha uma boa tripulação mas o comandante era teimoso como portas. Estava no fundo, com alucinações profundas, num submarino amarelo.

É um daqueles submarinos que a gente não sabe como chegaram cá, nem como foram pagos, nem tão pouco como é que este comandante se meteu nele. Agora, do fundo até à tona de água vai um mundo de ilusões.