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afonsonunes

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Que Deus nos livre! ... Este desabafo, certamente, teria o impacto do anúncio de uma bomba atómica prestes a rebentar no meio dos crentes e dos ateus, que vivem sob o céu que uns desejam fervorosamente e outros ignoram distraidamente. Tão divina visita devia ser a suprema ambição de quem ambiciona a vida eterna e, quem sabe, o início de uma tentativa de começar já, a ganhar a possibilidade de garantir o tão almejado lugar.
Mas, Cristo não é um qualquer cidadão do mundo a quem se possa meter uma cunha, ou contar uma pureza de vida que a consciência não possa confirmar. Certamente que Cristo não viria perguntar a ninguém, quais os defeitos e as virtudes dos avaliados e candidatos à frequência do seu reino. Daí que a tradicional confiança nos dotes próprios, sofresse desde logo um duro golpe, perante a verdade nua e crua da justiça divina.
É por isso que o pânico seria total e Cristo teria, certamente, que virar costas para não provocar o colapso deste planeta desorientado. Assim, como está agora, ainda há quem se vá safando menos mal e, como dizia o outro, do mal o menos.
Já agora, podemos fazer de conta que Cristo vem aí. Vamos ensaiar uma cena terrível. Uma espécie de simulacro, ou uma preparação para sobreviver a um evento de grande impacto sobre a população deste território experimental, tubo de ensaio de toda a arte de enganar o parceiro do lado.
O anúncio da chegada de Cristo foi feito vinte e quatro horas antes, como manda a lei. A princípio, as pessoas olharam umas para as outras, caladas, incrédulas. Pensaram nas outras pessoas. Logo a seguir meteram a mão na consciência. Porque não podiam metê-la na consciência dos outros, baixaram os olhos e debandaram.
De repente deixaram de ter ambições de chegar onde sabiam que não tinham lugar. Concluíram que não ganhavam nada em apregoar e querer impor a sua doutrina, perante quem lhe mostraria outra, bem mais coerente e mais justa que a sua. Com a agravante de que, com Cristo, não adiantava abrir muito os olhos, badalar muito, sempre no mesmo sino. Um sino tão velho, que já cheirava a mofo.
A chegada de Cristo estava quase a acontecer, quando alguém teve um rebate de consciência e elevou a voz no meio dos apressados, anunciando que ia fugir para o inferno, pois a democracia que restaria a partir desse momento, o envergonharia de continuar a lutar pela sua causa. A única causa verdadeiramente digna desse nome.
Por isso, havia decidido transformar a sua voz em labaredas, que se espalhariam por todo aquele reino escaldante, onde já se imaginava ao rubro, mas rindo de entusiasmo. Com a certeza de que Cristo nunca lá entraria.