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afonsonunes

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Começou a luta dos insubstituíveis pelo reconhecimento dos seus direitos especiais, neste mar de gente em risco de ser banalizada no orçamento que aí vem. Mas há quem lhes chame a luta dos privilegiados. Será?

Podia começar por referir muitos desses candidatos a tratamento condigno na relação do salário com o trabalho desempenhado. Podia começar por cima ou por baixo. Obviamente, em relação aos salários.

Vamos supor que todos os trabalhadores dos transportes faziam uma greve por tempo indeterminado. O país parava ao fim de alguns dias. Logo, não se pode passar sem eles. Logo, deviam ganhar acima da média.

Vamos supor que os cantoneiros da limpeza paravam indefinidamente. O país adoecia, inundava os hospitais e colapsava os serviços de saúde. Logo, são indispensáveis e não se lhes pode negar um estatuto especial.

Vamos supor que todos os médicos se metiam em casa por tempo indeterminado. Está-se mesmo a ver que não havia coveiros suficientes, nem cemitérios, para enterrar os mortos. Logo, mais um estatuto especial.

Vamos supor que os juízes saíam dos tribunais e deixavam o governo a julgar por muito tempo. O país não aguentava tanto criminoso à solta. Mais do que já andam agora. Logo, mais um merecido estatuto especial.

No campo das suposições, podíamos arranjar estatutos especiais para enfermeiros, agricultores, pescadores vendedores, compradores, funcionários e tantos outros que podiam parar o país e lixar-nos a vida.

Alargando esta ideia de imprescindibilidade genérica, todos os cidadãos desempenham um papel fundamental na sociedade, logo, a sociedade não existe sem cidadãos. Todos diferentes, mas todos necessários.

Nesta época de crise todos querem ser mais imprescindíveis que os outros. Mas, salvaguardadas as necessárias distâncias naturais, mas sem privilégios elitistas, é justo que todos se juntem e não que se separem.

Portanto, a ideia generalizada neste momento é de que apenas os políticos, governantes incluídos, seriam os primeiros a ser dispensáveis. Os únicos que podiam fazer uma greve sem fim. Mas, tiremos daí o sentido.