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afonsonunes

afonsonunes

25 Dez, 2008

O drama do dia

Nem quero sequer pensar que pode vir a acontecer um dia, em que não haja nada, nadinha mesmo, que não nos surpreenda pela manhã, logo que assentemos o primeiro pé fora da cama. Depois das mortes e das desgraças, que já não surpreendem ninguém, lá vem a notícia do dia, geralmente, um pressentimento, um desabafo, um receio, um palpite, de um político, ou de um presidente de um clube de futebol lá de cima, ou lá de baixo. Muito mais surpreendente, se for lá de cima.

Esse constituirá, sem dúvida, o drama do dia, repetido até à exaustão durante toda a jornada informativa e em tudo quanto diz que divulga notícias. Mesmo que não consiga dar uma, que mereça essa designação tão enganadora. Admito que haja quem goste do estilo, mas também admito que há, quem não saiba lidar com notícias, mesmo que diga que as dá a todo o momento.
Até porque sabemos que já ninguém dá nada a ninguém, ainda que seja gato por lebre. Quando muito, impingem-nos qualquer coisa, com o intuito de receber muita coisa em troca. E nós, uns mais que outros, lá vamos entrando, ainda que contrariados, que mais não seja com a nossa benevolência, a nossa paciência, por vezes com o nosso desprezo e o nosso repúdio, por aquilo que eles queriam que nós aceitássemos.
Tenho para mim que muitas vezes é ignorado um dos significados de notícia, que é informação de uma coisa sabida por quem a dá. As minhas dúvidas começam logo aqui. Quem dá a notícia deve saber o que dá, e não limitar-se a papaguear aquilo que leu, ou ouviu, em outra informação qualquer, provavelmente, também papagueada.
O drama do dia pode, pois, ser apenas a constatação de uma vulgaridade, de um lugar-comum, por exemplo, do homem que dorme sem pijama, ou da mulher que não gosta de cuecas. Do presidente que diz que vai ganhar o próximo jogo, ou do político que diz saber o que pensa outro político. É bem de ver que, coisas destas sobre pijamas, cuecas, jogos e pensamentos de políticos, só podem ser notícia, para quem não pensa mesmo nada.
O drama do dia, ao menos, podia ser uma novidade sobre factos ou pessoas com notoriedade, que nos trouxesse algo de interesse e interessante, e não o costumeiro registo de quem vai andar por aqui, já se sabe a fazer o quê, e a dizer amanhã, coisa ainda pior do que acabou de dizer hoje. Isto pode não ser propriamente um drama, mas é dramático que não haja imaginação para nos dar um drama diário a sério, não nos noticiários mas, sugiro eu, num programa do tipo, coisas do arco-da-velha, já que isso talvez fosse considerado por alguns, como tendo alguma actualidade. Claro que há sempre quem exerça o seu direito de veto e eu concordo plenamente. Direitos, são direitos, mesmo os que se revelam bem tortos.
Como este escrito não é uma notícia, nem nada que se pareça com isso, parece-me conveniente que também não deve ser considerado nenhum drama, nem do dia, nem da noite.