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afonsonunes

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26 Dez, 2008

A corte e a corte

Há uma diferença abissal entre uma e a outra corte, apesar da sua aparente semelhança à primeira vista. Uma delas designa o local de acolhimento dos animais nas zonas rurais e a sua pronúncia faz-se com o ó aberto. A outra designa o paradeiro ou o aparato real e obriga-nos a fechar o ô. Coisas aparentemente sem sentido, que obrigam à hesitação da língua, antes de pender para uma ou para a outra corte.

É, portanto, uma questão de ó ou de ô, mas estamos proibidos de estabelecer essa diferença ao escrevê-las. Como se a corte dos animais domésticos, normalmente, um anexo da casa de residência, juntamente com o palheiro e o quintal, fossem assim uma espécie de sumptuoso palácio onde a realeza e a fidalguia vão matando o tempo entre os aposentos de dormir e de comer, com passagem pelos salões de diversão.
Mas, isso era nos tempos de antanho, porque hoje já são poucos os animais que têm corte, mas são muito mais que os reis e os fidalgos, aqueles mandões que têm a sua corte. E infindáveis são todos os melados que passam a vida a fazer a corte com vista a algo, ou a alguém.
Mais ou menos justificada está a corte que serve, rodeia e acompanha as mais altas individualidades do estado, tendo em linha de conta o prestígio e a dignidade que lhes são devidos, bem como as múltiplas respostas a solicitações de todo o tipo e em qualquer momento. Porém, andam por ali muitos fidalgotes atrelados, que não fazem nada, nem servem para nada, andando ou estando por ali, exclusivamente, para engrossar a corte dos servidores de suas excelências. 
Há a extensa corte de outros servidores do estado, os directores e as chefias de quase todos os níveis, onde os séquitos são constituídos por lacaios, que em lugar de ajudar a resolver qualquer coisa, se dedicam a dar ordens que só servem para complicar a vida de muitos subordinados que, por sua vez, são obrigados a fazer a vida negra aos utentes que os procuram.
Não menor é a corte dos privados que criam as suas quintas, os seus quintais, os seus palheiros, onde até têm uma corte para os animaizinhos domésticos, que estão programados para armazenarem o mais que podem, às escondidas, até os palheiros rebentarem pelas costuras, para mais tarde serem esvaziados, também às escondidas. 
Como se não bastassem as muitas cortes que fazem de nós os tributários a quem compete sustentar todos os reis, fidalgos e lacaios, ainda nos caem em cima os cortes, estes no masculino, que nos levam o couro e o cabelo, cada vez que as cortes não conseguem cumprir os orçamentos, ainda que devido aos excessos de luxúria praticados nos seus salões.
Lembro-me muitas vezes das cortes de antigamente, nos quintais das aldeias rurais, onde os animais dormiam ou repousavam quando o trabalho dava uma folga. Sim, os animais trabalhavam. E, enquanto descansavam, ainda dormiam, ruminavam e rentabilizavam a cama, que só era mudada de tempos a tempos. Era o adubo das terras que, então, ou não havia, ou era demasiado caro para a agricultura de subsistência. Onde o burro e a vaca eram reis. Reis da sua corte.
Os cortesãos de hoje, nunca darão o devido valor às comodidades e aos luxos das suas cortes.