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afonsonunes

afonsonunes

27 Dez, 2008

O bigode e a loira

 

 
A loira veio do frio e o bigode adora tudo o que se passa lá pelo frio longínquo, apesar de ter nascido por cá, e por cá se ter mantido, com os dois olhos e os dois ouvidos assestados permanentemente para as paragens de onde veio a loira. Convém esclarecer que, o facto de eu estar a metê-los aqui, em conjunto, eles nada têm a ver um com o outro. E até seria uma pena se tivessem. Ah! Não tenho nada contra bigodes normais.
Seria uma pena, se alguma ligação os unisse, pela razão simples de que eu gosto da loira. Não faço ideia se ela é fria como as suas origens, ou se é quente como a terra que escolheu para viver. Sei que o seu sorriso responde a todas as perguntas que parecem sair do seu olhar penetrante. Também eu já fiz as minhas perguntas através do meu olhar incisivo, mas as respostas foram sempre dadas, só e apenas, pelo sorriso que muita gente vê e admira, tal como eu.
O bigode é outra história. Eu não gosto de bigodes e, muito menos, no sentido de que gosto da loira. Depois, aquele arreganho do bigode, quando sorri, ao mesmo tempo que profere ameaças de fazer ruir o mundo, faz-me cá um medo de ir meter-me debaixo das saias da loira. Parece-me que seria um abrigo seguro contra o bigode ameaçador e ao mesmo tempo sorridente. Não consigo perceber esta polivalência.
Vejo um e o outro no mesmo palco, mas nunca ao mesmo tempo. Quando aparece a loira nunca me lembro do bigode mas, ao contrário, quando vejo o bigode, viro a cara para o lado e só penso no sorriso da loira. E, por cima do sorriso dela, lá estão os olhos de uma tentação infinita.
Quando o bigode fala, não oiço palavra com palavra do que ele diz. Porque logo penso que a loira nunca fala, mesmo quando aparece no palco. Mas, eu imagino que ela tenha uma voz tão doce como o olhar e tão pura como o seu sorriso.
O bigode enerva-me porque não me ensina nada, só ofende a minha sensibilidade e retira-me a concentração que me faz falta para não perder uma imagem que seja da loira, retida no meu pensamento. Às vezes pergunto a mim próprio, porque motivo há-de haver um bigode que faz sentir-me ignorante, no lugar onde podia estar sempre a loira, sempre sorrindo, sempre pestanejando.
Aquele palco partilhado, podia ser um lugar paradisíaco, se não houvesse um bigode atroz, que faz tremer tudo à sua volta, espalhando muito medo e impedindo a felicidade de alguém se sentir a sós com uma loira que não fala, mas sorri candidamente.
É por isso que daqui faço um apelo desesperado a quem faz a gestão do palco. Por favor, convidem o bigode a prescindir de dar espectáculo, que eu prescindo com todo o prazer de o ver e de o ouvir.
Porém, se de todo for impossível, por questões contratuais, dividam o palco ao meio quando o bigode estiver a dissertar. Num lado o bigode a falar e no outro a loira a sorrir. Por mim, já estaria satisfeito.