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afonsonunes

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Ainda dizem que não há milagres. Também dizem que não há bruxas, mas… lá vão falando nelas e nos seus endiabrados feitiços. Portanto, falar de milagres não é assim tão despropositado como a muitos pode parecer. Só que há milagres a mais na cabeça de certas pessoas que se julgam da lei terrena libertadas, para se entregarem à esperança de que a lei divina os isente dos dissabores da vida.

É precisamente daqueles que, provavelmente, só entraram numa igreja quando casaram, se é que casaram, ou casaram pela igreja, que me lembrei, neste dia em que oito peregrinos rumaram a Fátima, terra de fé e de esperança pela oração. Ao que sei, não foram ali rezar, nem tão pouco foram cumprir promessas, ou assistir ao conforto espiritual da missa.
Apesar disso, lá estava alguém à sua espera, para ouvir certamente o desconforto daquelas almas que sofrem, que clamam por justiça, no convencimento de que uma influência, não divina, mas humana, veiculada através do poder de comunicação com as multidões, lhes salvará a face de desmandos que não souberam controlar.
Outros peregrinos cheios de fé, fazendo grandes sacrifícios físicos e financeiros, deslocam-se ali ao longo do ano inteiro, mas não encontram mais que o conforto e o sossego do santuário. Não esperam mais que ver uma imagem perante a qual se curvam devotadamente. Não esperam senão rezar longas e demoradas orações, antes de regressarem a suas casas.
Mas, há oito peregrinos de faz de conta, que vão a Fátima bem instalados em confortáveis viaturas, que não rezam enquanto esperam que aconteça a recepção no interior do santuário, pedida e aceite, sabendo-se que de religiosa nada tinha. Que privilégios se conseguem, comparados com a distância a que ficam os verdadeiros peregrinos, de alguns dos representantes da fé naquele local sagrado.
Presume-se que o encontro, a audiência ou a conferência, tenha tido um tom muito amistoso, talvez porque o assunto versado fosse de interesse mútuo, ou de interesses diferentes que, no fundo, visavam o mesmo objectivo, que nada tem a ver com a fé. Nem tão pouco com o conforto espiritual que os representantes da igreja dão aos desesperados da sorte e da doença.
No final, e à saída de tão importante encontro, não se falou de guerras nem de paragens no regresso a casa. Falou-se de esperança em conversas de paz mas, aparentemente, com o dedo no gatilho da arma que se adivinhava no bolso. Resta saber se havia apenas uma arma escondida. Pela escolha das palavras do lado que se supõe ser o lado da paz, ficam algumas reservas.
Adivinha-se o que vão ser muitas das homilias do próximo fim de semana, como aliás o são, sempre que se aproximam eleições. Curiosamente, nunca a favor dos ora peregrinos, mas as circunstâncias mudam como os ventos.
Só é de esperar que, da parte do governo, não haja a tentação de reagir, aconselhando os cidadãos a não confessarem os seus pecados a esses confessores conselheiros. E que não cometa a imprudência de aconselhar esses peregrinos a fazerem a próxima viagem a pé, como sinal de devoção a sério.