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afonsonunes

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Confesso que estou morto de gozo, depois de uma viagem longa, muito longa, em que me fartei de dormir lá nas alturas e, quando abria os olhos à socapa, só via coisas boas à minha frente e à minha volta. Dava então para pensar que, se isto aqui em cima era assim, o que seria quando descesse à terra e pudesse meter as mãos, onde agora só podia meter o olhar, e de fugida.

Realmente, ainda faltava muito para a meia-noite, mas a minha imaginação já estava em brasa. Porque à meia-noite tudo tem de mudar. A começar pela água da torneira ou do vinho de garrafão, que serão banidos das mesas de toda a gente, para dar lugar a ruidosos espirros de garrafas de champanhe, das mais diversas origens do mundo inteiro.  
Muita gente vai evaporar-se de gabinetes sombrios e conflituosos, para se dirigir a um casino repleto de vítimas de decisões que saíram desses gabinetes. Será uma oportunidade única para a reconciliação amigável, festejada com muitos beijos e abraços e, em alguns casos mais sensíveis, trocas de prendas e provas de amor eterno.
Todas as greves previstas para esta noite, e eram muitas, foram surpreendentemente canceladas, porque ninguém quis deixar de abraçar chefes ou patrões, e confraternizar com eles, promotores dos festejos que, por uma noite, deixaram de ser sovinas e caloteiros. A melhor prova disso, é que eu estive no ar, e comigo estiveram pessoas, com caramba, que eu nunca imaginei ver juntas, nem mesmo nas imensas alturas.
Tudo tem de mudar. Ainda falta muito para a meia-noite e já não oiço ninguém a lamentar as suas desgraças ou misérias, sinal de que vai haver muita música nova e espírito de reinação, com danças e contradanças animadíssimas, onde todas as caras estarão desmascaradas e limpas de todas as sujidades e de todas as vaidades.
A partir da meia-noite não haverá fatos de macaco nem asas de grilo, não haverá mesa reservada para ninguém, nem lugares cativos, ou menus encomendados. Tudo isto para evitar os assobios dos que só viam disto pela televisão, para evitar os nomes foleiros atirados a quem se julgava sempre sentado na mesa de honra, para evitar que houvesse música especial para dançarinos e dançarinas especiais.
A partir da meia-noite, não sei ainda o que vou comer, nem onde me vou sentar, tendo grandes expectativas de ficar ao lado de uma personalidade daquelas que trazem sempre uma enormidade de fotógrafos atrás, ou à frente. Assim, também eu poderei aspirar a ficar em alguma das muitas imagens que depois correrão o país e o mundo. Eu sei que é assim que se começa a ser célebre. Lá diz o povo, junta-te aos bons e serás melhor que eles. Eu sei que sou bom, portanto, alguém acabará por se juntar a mim.
Depois da meia-noite, longe do meu país e da minha casa, eu sei que vou estar na melhor passagem de ano do mundo. Comigo vão estar todos aqueles de quem tanto mal vós tendes dito, os mesmos que tanto mal têm dito uns dos outros, e os mesmos que querem todos a mesma coisa. Mas, nesta noite diferente, vão comer, beber e dançar, como se fossem todos, aquilo que todos desejam ser.
Quanto a mim, mais uma vez me deixei dormir em casa e fiquei a sonhar com o avião que sempre partirá sem mim. Depois da meia-noite, para mim, nada vai mudar.