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afonsonunes

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01 Jan, 2009

A doença da crise

 

 
A crise não é uma pessoa mas é uma coisa. E uma coisa muito séria, que ninguém quer levar a sério. A verdade é que as coisas também adoecem e, na devida altura, lá vem o momento de morrer. Porém, não é da morte que se trata agora, que essa, nem eu a posso ver pela frente. Portanto, volto à crise e à sua doença, que só o tempo dirá, se é crónica ou curável. Há quem a considere excepcional e há quem a queira essencial.
Estranhamente, a crise apareceu quando menos se esperava, quando já todos, salvo seja, tínhamos boas casas, bons carros, boas férias em bons paraísos tropicais, bons paraísos fiscais para o dinheiro que não conseguíamos gastar, e até, bons empregos onde nem nos diziam para trabalhar alguma coisa. Só os pessimistas é que vão dizer que não é bem assim.
Estranhamente também, a crise apareceu com uma pujança invulgar, cheia de vitalidade, como que uma força bruta da natureza, saltando de banco em banco, abanando os cadeirões dos banqueiros, como quem sopra nos coqueiros das praias onde o vento limpa os pulmões.
Quem assim surge em cena, não pode queixar-se da saúde e, desde logo, se percebeu que ela, a crise, não ia morrer tão cedo, até porque não estava a imaginar-se quem poderia tomá-la, moribunda, nos seus braços caridosos, após alguns golpes fatais de responsáveis pelo seu  aparecimento.
Puro engano, pois não houve nenhum desses responsáveis, que arriscasse erguer um braço, dos seus, para tentar atingi-la, preferindo estender os seus dois braços à solidariedade dos seus amigos, para acautelarem o perigo de se verem envolvidos no tumulto do desespero dos mais atingidos pelos seus desmandos.
Contudo, nem sequer a crise conseguiu manter o seu vigor por muito tempo, tal como aconteceu com os seus autores. Há uma coisa que se chama doença que, tal como a crise, aparece de surpresa e ataca quem menos se espera.
Inesperadamente, foi a própria crise a ser atingida por um vírus completamente desconhecido, que motivou, de imediato, um movimento de salvação em grande escala, por parte de quem, em princípio, se esperava que fosse entusiasticamente requerer-lhe a morte assistida, colhendo os benefícios e os louros desse homicídio às escondidas.
O movimento de salvação da crise está aí, para lhe dar vida. Afinal, a crise está doente por causa de um vírus oriundo de contágios contra natura, transmitido pelo confronto violento no interior de quem odeia a crise, que lhe mexe nos altos interesse materiais, mas, pelo contrário, lhes alimenta a esperança e a expectativa de que ela, a crise, lhes traga uma mudança que não são capazes de criar por si próprios.
É bem de ver que a crise está doente, mas não está para morrer. Ainda que estivesse nos cuidados intensivos, que não está, teria todos os antibióticos necessários à sua sobrevivência, pelo menos, por enquanto. Para já, é a crise que lhes alimenta uma esperança. Há que tratá-la bem. É a crise amiga deles.   

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