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afonsonunes

afonsonunes

03 Jan, 2009

Ouvir em português

 

 
Já vou tendo os ouvidos cheios e não estou a ouvir nada que me dê a esperança de os despejar deste cansativo e estupidificante assunto, que já se tornou mais num diálogo de surdos, que numa canção de embalar meninos de creche após a papinha do meio-dia.
Por vezes tenho a sensação que há portugueses permanentemente interessados em ignorar o sentido das palavras mais banais da nossa língua. Ora, ao longo destes últimos meses, mas mais acentuadamente nos últimos dias, têm-se escutado coisas que ferem o ouvido de quem não quer saber de tiros de canhão, com ou sem recuo, mas preza a verdadeira função da gramática e do bom senso.
Ouvir, tem sido o refrão de uma canção de empatas, ou seja, de quem quer estar de bem com Deus e com o Diabo, não tendo coragem de escolher o lado da barricada de onde deve colocar-se, numa guerra que tem dois contendores muito diferentes. Um que está desejoso de falar, mas dizendo sempre a mesma coisa, e outro que está farto de ouvir, fazendo de conta que não ouve nada.
Dizem os empatas que é preciso ouvir. Talvez queiram dizer que é preciso ceder, esquecendo que se enganaram no termo empregado. Isto, para não falar naqueles que, provavelmente, estão a confundir ouvir, com dar ordens a quem os ouve, esquecendo que uns apenas têm o direito de ser ouvidos, e outros têm a obrigação de ouvir.
Não está aqui em causa a razão de fundo que pode estar de um lado ou de outro, ou até de ambos. Está aqui, apenas, em causa, uma questão de português e de ambiguidades que alimentam, usando como nutrientes umas confusões repetidas até à exaustão, porque lhes dão jeito para carregar e disparar o tal canhão, na esperança de que ele vá recuando, até às trincheiras que ocupam.
Contudo, também ignoram o perigo real que existe de, depois de alguns recuos, possa haver um tiro que, inesperadamente, ou não, saia pela culatra.
Será então, uma vez mais, uma enorme confusão, tanto entre os que não souberam, ou não quiseram ouvir demais, e entre os que não souberam disparar o canhão, acabando por ficar, não só com os ouvidos entupidos, como também com a boca chamuscada pelas labaredas vindas da culatra fumegante.
É bem verdade que muito se tem falado de ouvido. Também é verdade que muito se tem matado o bichinho do ouvido a alguém, do mesmo modo que tem havido alguns ouvidos de mercador, quando era de todo conveniente que os dois lados dissessem sem reservas: sou todo ouvidos.
Na realidade, todos nós, e eles, temos dois ouvidos que servem para ouvir o que os outros dizem. Mas, ouvir, é só ouvir. Compreendendo ou não, o que se ouve, depois de ouvir, há que aceitar que a música é outra, ainda que seja tocada de ouvido.