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afonsonunes

afonsonunes

05 Jan, 2009

Falta-zita

 

 
Se para uns foi uma ‘faltazita’, para outros foi uma ‘faltazona’, pois logo houve aqueles momentos de partir a moca, com a fartura de matéria polémica de encher o papo. Houve quem visse nessas faltas, o funeral de uma maioria, ressuscitada pelo abortado golpe de misericórdia de uma minoria que esteve a dormir na forma.
Parece-me, a mim, que anda muito mais gente a sonhar com suspensões, do que os inocentes faltosos, fartos de saber quem falta, quando falta, e as consequências das suas faltas. Mesmo atendendo a que se tratava de uma normal sexta-feira, dia de regresso às aulas, perdão, dia de regresso a casa, ao doce lar, de alguns dos faltosos. Para os outros, era dia de qualquer coisa, que só eles poderiam confessar.
O primeiro momento, o momento da fúria inicial, veio da chefe, da carismática e irredutível cara da rigidez regimental e da fonte da transparência nacional. O acto era imperdoável e inaceitável, estando em causa uma oportunidade única, memorável e irrepetível, de obter uma vitória histórica.
A comunicação social, em geral, viu o filme através do mesmo projector e ainda com a vantagem de usar lentes especiais, para realçar essas imagens de sucesso.
Porém, a chefe, depois de reflectir e de ouvir o porta voz dos faltosos, acalmou. A comunicação social continuou a alimentar o folhetim. Dos faltosos vieram as primeiras justificações das faltas. Tudo muito simples. O normal. E, mais normal ainda, para uma sexta-feira, que já nem devia constar da ordem de trabalhos.
Mas, vamos lá à falta-zita. Estava lá, mas resolveu ir para trás da porta, para não votar a favor. Em princípio, é feio ficar atrás da porta a ver, ou a ouvir, o que se passa lá dentro. Bem podia ter ficado lá dentro e votar contra, ou abster-se. Mas não. Foi lá para fora. Já sei que estão a pensar na disciplina de voto. Pois é, mas quem tanto apregoa medos e claustrofobia democrática, estas disciplinas têm qualquer coisa de contraditório.
Por acaso, devem estar a esquecer o que se passa ali ao lado, onde alguém faz isso por sistema e é altamente elogiado pela sua rebeldia democrática, pelos seus actos sem medo e pela sua independência, que tanto agrada a quem faz exactamente o contrário. É que o bate o pé do vizinho, dá origem a uma festa, mas o bate o pé dentro da nossa casa é uma indisciplina intolerável, que vai ter consequências terríveis. Cá estamos para ver.
Em causa, parece estar a cidade de Coimbra, talvez por causa dos ares e da humidade do basófias, que continuam a ser uma lição e uma tradição, inspiradoras de poesia e, para rimar, rebeldia, que só pára em Lisboa, centro de todas as manifestações que, na origem, passariam despercebidas.
O fado coimbrão, menos irreverente e rezingão que uma tricana-zita e um universitário-alegre, tem destes intérpretes vizinhos, mas muito, muito, afastados um do outro. Porém, Coimbra, continua a ser uma lição, mesmo fora das aulas.