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afonsonunes

afonsonunes

07 Jan, 2009

Lápis ou virus?

 

 
Se me não falha a memória havia dantes um lápis que servia para sublinhar escritos que eram para cortar, na altura de os passar para o conhecimento público. Segundo a minha modesta opinião, tão grave, ou mais, que o acto de cortar, era a cor utilizada para esse fatídico sublinhado.
Imagine-se que o lápis era azul, cor do céu, símbolo de pureza angelical, a seleccionar palavras ou frases supostamente diabólicas. Isto, no meu entender, era um sacrilégio inadmissível, até porque dava uma ligação perigosa entre o bom azul e a má escrita. Ainda se o lápis fosse vermelho, podia associar-se-lhe a ideia de sanguinário, detentor do mal, aliado a uma função exterminadora do pensamento ruim.
O azul e o vermelho estão agora muito em voga, mas não é fácil arranjar um consenso sobre qual deles é o veneno que nos vai matar, e qual deles é o remédio que nos vai salvar. Os jornais, muitos deles, aparecem todos os dias inevitavelmente pintados a duas cores, como se o azul quisesse banir o vermelho, tal como se fazia dantes.
Hoje ainda há lápis azuis nas mãos das crianças nas escolas. Mas, também há lápis vermelhos e verdes, além de muitas outras cores, que passam para desenhos inocentes. Apesar disso, continua a haver quem não goste nada, de tudo quanto é vermelho. Será doença?
Porém, os adultos já deixaram o lápis azul. Nos locais onde eram maliciosamente utilizados, já reinam os computadores, geralmente com cores muito discretas, junto dos quais há homens e mulheres que não sabem o que é cortar, riscar, ou sublinhar, para discriminar, porque não são do tempo do famigerado lápis azul.
Contudo, ainda há uns descendentes desses utilizadores, que não se conformam com a mudança geracional. Instalados em locais restritos, onde ainda podem ter uma certa liberdade de cortar, não através do lápis azul, que para eles agora seria preferencialmente vermelho, mas recorrendo às modernas potencialidades da nova escrita controlada por cliques.
É assim em alguns ditos jornais de província, que nos pedem para comentar escritos mas, depois, se os comentários não lhes agradam, levam a sentença de um clique exterminador, mesmo que sejam muito mais decentes que os escritos comentados.
E, como se isso não bastasse, resta a sensação de que ficaram vírus informáticos espalhados à nossa volta, como se o nosso computador tivesse sido atingido pela contaminação que reina nesses ditos periódicos, onde a linha de pensamento tem, forçosamente, de ter sentido único.
Caso contrário, os vírus ditos de um certo bem e de uma certa moral, atacam sem dó nem piedade. Tal como os utilizadores dos antigos lápis, os destes vírus, que também são azuis, incham de cólera quando pensam no vermelho. Então, nem reparam para a cor que têm na cara.