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afonsonunes

afonsonunes

12 Jan, 2009

Os "inhos"

 

Apetece-me começar pelos tontinhos. Embora me pareça que há muitos, até podia haver muitos mais. Mas, não sabemos se a tendência é para aumentar ou diminuir, pois o INE ainda não se lembrou de nos fornecer essa importante informação. Na minha modesta opinião, essa tendência é para diminuir, uma vez que hoje em dia, uma grande parte dos tontinhos, passaram a ser mais que tontos.
É que um tontinho não é o mesmo que um tonto. Nem tão pouco eles se diferenciam pelo tamanho ou pela idade. A diferença está na cabeça de quem escolhe um ou outro termo, normalmente, em função da qualidade e da intensidade da tontaria, como se fosse possível arranjar uma escala classificativa para todos os tontos que nos atormentam a vida todos os dias. 
Os ceguinhos e os aleijadinhos do tempo da caridadezinha, vão conseguindo, com muito esforço, libertar-se da carga altamente deprimente que a sociedade lhes transmitia, com essa espécie de mundo à parte em que os colocava. Hoje, cada um com as suas deficiências, todos nós as temos, conseguem integrar-se no mundo do trabalho, quando lhes é permitido fazê-lo.
O pior são mesmo os ceguinhos e os aleijadinhos que não têm deficiências físicas, que conseguem ver perfeitamente onde metem a mão, ou onde dão o pontapé que aleija quem o leva. Muitos destes deficientes estão bem colocados, onde nem precisam pensar nada, tão pouco precisam correr para chegar depressa onde querem.
Hoje, ouve-se a toda a hora uma espécie de paladinos do apelo à comoção geral, a favor dos pobrezinhos, e lá acrescentam, ou antecedem, um enternecedor, coitadinhos. E até são capazes de dizer que rezam por eles uma oraçãozinha de conforto, com toda a devoção da sua alminha quase milagreira. Mas, o que eles não conseguem é prescindir de parte do que têm, ainda que mais ou menos mal arranjado. Se o fizessem, não deixariam de dizer que estavam a contribuir com uma ‘ajudazinha’, para ganhar o céu.
O que está mal em todos os ‘inhos’, é a ideia de pena, revelada até no tom de voz com que muita gente fala com deficientes de qualquer natureza, ou com quem se encontra em situação difícil. Como se, com essa atitude, quisessem demonstrar um sentimento profundo de compreensão, que não passa de uma demonstração de negativismo, de conformismo, quando podiam dar palavras de ânimo e de incentivo a lutar para vencer.
Ainda há quem prefira dizer que dá esmolinhas que, lá no fundo, servem para lhes amaciar a consciência, quantas vezes muito endurecida, em lugar de se tornar solidário com as grandes e pequenas causas, que podem ser abraçadas por qualquer cidadão, em qualquer lugar onde viva. Todo o acto de dar, deve ter em conta a dignidade de quem aceita.
Cá no meu entender, todos os ‘inhos’ e ‘inhas’, devem ser utilizados, principalmente, quando o coração se abre de par em par e deixa escapar desabafos amorosos, em jeito de manteiga derretida. Se houver prenúncio de alguma ‘hipocrisiasinha’, ainda que muito ‘comovidinha’, então é caso para dizer, em contramão, que estamos perante uns coitadinhos e pobrezinhos de espírito.