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afonsonunes

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Hoje não há assuntos que não sejam considerados polémicos. Qualquer ‘assuntinho‘ de trazer por casa ou de encher cabecinhas ocas, logo que assome à janela de qualquer mente iluminada, vem aureolado pelo toque da sensação, isto é, dourado pelo perfume rasca do sensacionalismo.

Alguém dirá que o assunto que vou abordar hoje não passa de uma tentativa de suscitar controvérsia, dada a quantidade de gente que não vai gostar de ver tratar os seus queridos e estimados complementos ‘familiares’ com menos carinho que aquele com que normalmente os mimam.  

São os vulgarmente designados por 4 patas, uns com patas grandes, que impõem a sua conversa com voz grossa e dentes arreganhados. Outros com patas pequenas, algumas mesmo pequeninas, que são tratados como ‘bébés’ e mimados com colinho, com beijinhos nas suas ‘boquinhas’ e abracinhos de corpo inteiro.

Fui criado numa aldeia onde sempre lidei com 4 patas e ainda não havia esta proliferação de ‘minis’ que hoje são a boa companhia, saudável e útil companhia, de muita gente que não tem outra. Nesse tempo havia muito menos depressão, quase não havia solidão, e a noção de família tinha outra amplitude. Daí que os 4 patas tinham a sua vida restringida a outras valências na servidão aos seus donos.  

Hoje, e já lá vão muitos anos, vivo numa cidade em que, como em tantas outras, está proporcionalmente mais desenvolvida a possibilidade de os 4 patas terem melhor qualidade de vida que uma parte significativa dos humanos que sobrevivem, quantas vezes, em condições deploráveis.

Hoje, os 4 patas são levados à rua para fazer o que não os deixam fazer em casa, percorrem diariamente ruas denominadas de haga-hão, onde deixam presentes abandonados, que outros hães irão cheirar com os narizes que alguém irá beijar com toda a meiguice do mundo.

Os 4 patas citadinos, muitos deles vivem e ladram ruidosamente, durante o dia e a noite, em quintais, pátios, varandas, no interior das casas onde vivem os seus ‘parentes’, perturbando vizinhos com sono mais leve, pessoas idosas, doentes, além de pessoas que acabam por ficar afetadas nas suas vidas pessoais e profissionais por não descansarem normalmente, por via do ruído que suportam, vindo dos vizinhos que provavelmente só conseguem dormir ao som dos seus queridos 4 patas.

Enquanto isso, há pessoas que têm muita dificuldade em ouvir as suas televisões, quando alguém que passeia o seu ‘parente’ vai suscitando as reações em cadeia de todos os ‘colegas’ que se encontram no percurso num concerto infindável de ‘ladrados’ entre os isolados e os passeados.

Mas, mais interessante, muito mais interessante, são aquelas pessoas que não querendo acompanhar os seus à rua, lhes abrem a porta e os deixam ir sozinhos, sem saquinho de recolha, sem trela, sem nada, ficando por lá o concerto e o conteúdo que devia ficar no saquinho e fica à espera de sapatos que os pisem e levem restos para casa pegados às solas.

Eu sei que há legislação para controlar todos esses inconvenientes. Sim, há. Mas não há nas autarquias quem, sendo pago para o fazer, não o faz como lhe compete.

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