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afonsonunes

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Tenho, inevitavelmente, de voltar à minha prima Ambrosina, porque já não existe uma mulher assim, por mais que se vasculhe em todo o lado, mesmo tendo em conta que nos partidos, normalmente, encontramos de tudo. Mas, não a encontramos lá a ela, Ambrosina, macarrónica e completamente destemperada. Aquilo não é defeito, é feitio.
Há uns bons tempos atrás, ninguém lhe arrancava uma palavra. Até parecia que tinha feito voto de silêncio, por causa de uma dentadura nova que chocalhava um pouco quando abria a boca. Mas, o companheiro, que a conhecia de ginjeira, segredou-me que não. Que ela, quando estava a sós com ele, falava que nem uma desalmada. E até se irritava quando ele não lhe dava uns à que sins, ainda que fosse com o abanar da cabeça.
Bom, segredo puxa segredo, e lá acabei por ficar convencido que a minha prima Ambrosina falava demais em casa, para compensar o silêncio que não quebrava na rua. E este silêncio devia-se, exclusivamente, à convicção dela de que ninguém iria gostar de ouvir aquelas coisas que ela tinha para dizer. Até que o companheiro, homem sensato e de boas maneiras, lhe pôs o dedo no nariz e a aconselhou docemente.
Não foi necessária muita conversa para que a minha prima Ambrosina percebesse que tinha de trocar o falatório. Em casa, tinha de deixar o companheiro em paz e sossego. Na rua, tinha de deitar fora tudo aquilo que lhe andava às voltas naquele palheiro macarrónico e destemperado. E lá arriscou a ideia de que, olha, quem não gostar come menos. Depois, lá se consolou com o paliativo de que há sempre quem goste um pouquinho, nem que seja para fazer jeito.
A verdade é que, nos últimos tempos, a minha prima Ambrosina parece outra. Além de falar pelos cotovelos, está ainda muito mais macarrónica e destemperada do que quando desopilava em casa com o companheiro. Só que, diz aquelas coisas que não leva ninguém a abanar a cabeça na vertical e, ao vê-las a abanar na horizontal, deixa-a profundamente deprimida.
Já tentei fazer-lhe ver que não estamos no tempo da monarquia, mas sim numa república, onde a linguagem dela não encaixa. Qual quê, veio logo com o argumento de que já nem a família a compreendia, mas que isso era um problema de não saberem ouvir a sua mensagem, que era real, verdadeira e honesta.
Sinceramente, andei uns dias a pensar nisso porque, ao fim e ao cabo, a Ambrosina era minha prima e, para mim, a família é tudo. Ainda lhe desculpava o seu aspecto real, que esse, ela mantém com toda a dignidade e altivez, como se tivesse no alto da cabeça a coroa que ela bem merecia. Já considerar que a sua mensagem era verdadeira e honesta, bem, eu acredito que ela acredita que é assim mesmo. Mas não acredito no que ela diz, e aí, prima, com muitas desculpas, ponto final parágrafo.
Apesar de saber que és macarrónica e destemperada, não concordo com aqueles que insistem em que tu és marroquina ou manuelina, só porque isso rima com Ambrosina. São poetas de lana-caprina, prima. Realmente, eles querem é que tu te cales outra vez, percebes? Por favor! ...