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afonsonunes

afonsonunes

15 Jan, 2009

Os papa tudo

 

 
A palavra papa serve para muita coisa. É daquelas palavras que davam pano para mangas, ou conversa para muitos serões na província, ou na cidade. Como a província ainda é muito mais pura que a cidade, falar de papa, é falar de paparoca, de comidinha, bem regada com o tintol indígena. Depois, o resto, é conversa.
Entrando mais na civilização, a conversa muda, tal como mudam as preocupações dos cidadãos, muito mais ambiciosos, para além da mesa posta várias vezes ao dia. Quem  não tem emprego, procura um, com mais ou menos empenho. Até há quem não tenha empenho nenhum. Mas, pelo contrário, quem tem um, procura o segundo e, por vezes, o terceiro. É assim que aparecem os papa empregos.
Como esse mau hábito já vem de longe, também já proliferam os papa reformas, alguns deles, ditosos trabalhadores no activo, em um ou mais locais de trabalho, nem sempre, auferindo, comodamente, e cumulativamente, uma ou mais reformas de outras origens.
Alguns até são bem conhecidos, pelo seu apego à justiça social, aos direitos que o estado social devia garantir, e à luta em nome dos desprotegidos da sociedade, que os governantes não protegem, por insensibilidade social. Até podiam ter toda a razão do mundo.
Mas, os muitos milhares de desempregados, podiam ter muito mais possibilidades de ter um emprego, se os papa empregos se contentassem apenas com um. E, mesmo nesse, deviam ter de demonstrar que trabalhavam mesmo. Ser, como há muitos por esse país fora, uns opulentos e inúteis papa salários, é um atentado a quem sempre viveu em crise.
Quanto aos papa reformas, dariam um bom exemplo de sensibilidade social, se aceitassem a lei geral dos reformados, a qual obriga a uma vida inteira de trabalho para terem direito a receber uma parte do salário que auferiam no activo. Bem sei que os papa tudo, dirão que apenas recebem aquilo a que têm direito. Pois é. Mas, o que está mal, e contra isso não se arvoram em lutadores, é a lei que lhes permite ter um direito, que impede os seus protegidos, que são os desprotegidos do estado, de terem o seu direito ao trabalho, mais que justo, devidamente concretizado.
Bem me parece que isto é muito difícil de compreender, porque a minha prosa é complicada, e os papa tudo são os melhores cidadãos do mundo. Acredito que são muito melhores que eu, apesar de terem o mau hábito de trabalhar demais, coisa que eu, nem de longe nem de perto, reivindico para mim.
Só tenho pena que o estado não chame a si o direito de estabelecer regras claras para que os papa tudo vejam transferidos os seus excessos de trabalho, e os excessos de vencimentos e de reformas, para os muitos desprotegidos que esses papa tudo se orgulham de defender, na qualidade de uma espécie de consciência da nação.
Um dia, terá de ser a nação a conter-lhes os apetites, próprios de autênticos papa tudo.
 

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