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afonsonunes

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18 Jan, 2009

Donos do meu país

 

Os donos do meu país serão para aí uns dez milhões, mais coisa menos coisa, que eu ainda os não contei, porque os dedos das duas mãos só dão para isto. Mas, de qualquer modo, nem somos muitos, se considerarmos que não há quase ninguém no Alentejo e muito poucos em todo o interior centro e norte.
Estamos, pois, com muita sorte, por ainda podermos esticar as pernas e os braços sem atingir ninguém. Por outro lado, estamos com azar, na respeitável opinião de quem gostava de ver as maternidades com maior taxa de ocupação. Temos de contentar-nos com a ineficácia de alguns donos do meu país, pois não sou eu que vou incentivar ninguém a esforçar-se demais.
Ser dono do meu país é uma honra, embora reconheça que não tenho voto na matéria, excepto quando voto. E já não é nada mau, se me lembrar que tenho o privilégio de morar aqui. Nem quero imaginar se, por exemplo, tivesse tido o azar de morar no Zimbabué, onde nunca poderia dizer que aquele era o meu país.
Como é sabido, aquele país é de um sujeito só. Ele, sim, diz sem papas na língua, suja de outras papas, que o país é dele. Sim, porque ele não diz, que aquele é o seu país. Não, ele diz, o Zimbabué é meu. Mas que fedor se sente, só de pensar em donos destes.
Nós por cá, não temos disso. Apesar de haver, como em todo lado, uns candidatos a donos exclusivos, daquilo que é de dez milhões de donos, em comunhão de bens, no que toca ao património territorial já que, em relação a outros patrimónios, a música é completamente diferente, como nem podia deixar de ser.
Contudo, há uma enormidade de donos deste país, que abusam dos seus títulos de propriedade, além de haver muitos donos que conseguem, com toda a facilidade do mundo, tornar-se donos daquilo que não lhes pertence, porque arranjam maneiras de agir bem e depressa, enquanto outros donos fecham os olhos para dormir uma soneca. Quando acordam, pronto. Já está.
Quanto a candidatos, nem é preciso abrir os olhos para os ver. Até basta ouvi-los. Para eles, isto é uma espécie de deserto do fim do mundo, onde basta reunir um bando deles, que basta parecerem muitos, para tomar conta disto e acharem-se com toda a legitimidade para serem os incontestados donos da chafarica, que nós pensávamos que também era nossa.
Não, eles entram, dão dois ou três berros para nos assustar, dão dois ou três murros na mesa para mostrar que são fortes, bebem dois ou três copos para aquecer, e depois, a lei são eles, os novos donos do mundo, porque assim o decidiram ali mesmo, por unanimidade, em reunião magna da sua chafarica. Da chafarica que deixou de ser nossa também.
Mas, felizmente para mim, ainda não estamos no Zimbabué, porque eu não desisto de ser um dos dez milhões de donos do meu país.