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afonsonunes

afonsonunes

25 Jan, 2009

Olhai os lírios

 

Nos tempos que correm já não é preciso ir ao campo para ver os lírios floridos. Até porque essa poderia ser uma tentativa frustrada, já que os campos estão de tal forma abandonados que nem uma florzita colorida qualquer, se encontra facilmente, para lá da flor das estevas e das giestas.
Em contrapartida, nas cidades, onde não há nada disso, encontramos lírios de todas as cores, para regalo da vista e conforto dos corações angustiados pela aridez das ideias que cultivam. Ao contrário dos lírios dos campos, que todos os anos se renovam, os lírios das cidades são de longa vida, ainda que, com reduzido prazo de validade, para efeitos de consumo.
Nós, os consumidores, não costumamos olhar para o prazo de validade dos lírios que se movimentam à nossa volta, talvez porque estejamos de tal modo habituados a eles, sempre os mesmos, mesmo quando vemos que alguns já estão murchos, mesmo a pedir contentor, daqueles que nem dá para reciclar.
Há aqueles lírios verdes, que nos pretendem encher de esperança, muito semelhantes ao padre que se abeira do moribundo para lhe dar o último alívio da sua palavra de conforto. Ora nós, ainda só somos moribundos, precisamente da esperança que se esvai a cada dia que passa, mesmo com todos os alentos dos nossos bondosos conselheiros.   
Os lírios vermelhos dão-nos a visão guerreira de um campo de batalha, onde devemos deixar a pele e o sangue, em busca de um mundo de ideais que nos seduzem, mas que acaba por ser um campo de lírios que, depois de murchos, até a cor se transforma na triste desilusão de um sonho que passou.
Olhai os lírios azuis, de azul celeste ou azul marinho, ambos dependentes da bonança ou da tormenta que anda no mar ou no ar, que ambos atiram para terra, com amor ou com rancor, como se ignorassem que é ali que a gente está. E a gente, parece que já nem sabe o que é amor ao próximo, se excluirmos os felizes que têm olhos azuis, único local do corpo onde essa cor se nota.
Depois há os lírios cinzentos, aqueles que nós costumamos ignorar, pois eles também sempre nos ignoraram, passando ao lado, olhando de lado, porque o lado deles nunca foi o nosso lado. O cinzento deles, vem do fogo vivo e brilhante que os aquece no interior dos seus palácios mas, quando os vemos cá fora, já só têm para nos mostrar a cor da cinza que resta no fim do fogo que deixaram lá dentro.
Lírios roxos, amarelos, castanhos, brancos, lírios que, como todos os outros lírios das cidades, andam na rua junto a lírios como nós, ou se mantêm em estufas que lhes permitem realçar a cor que os distingue dos lírios vulgares.
Olhai antes os lírios do campo, que esses, já são poucos, mas não enganam ninguém.