Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

04 Fev, 2009

Perninhas de frango

Ele há coisas do arco-da-velha. Então não vim a saber agora que se ganham eleições comendo muitas pernas de frango e muita carne assada? Realmente tem a sua lógica, mas tenho a certeza que haverá uns atiradiços que preferirão perninhas de franga, com o argumento de que nem é preciso haver eleições.

Deixando as piadinhas de mau gosto, fiquei mesmo a sentir o cheiro daqueles encontros comicieiros em que há uns voluntários para acender uns meios bidões cheios de carvão, sobre o qual se colocam grelhas próprias, à medida, por onde passam as tais perninhas de frango, a entremeada e as febras de porco, tudo bem temperado.
Escusado será dizer que cada comedor é um voto certo acrescentando-se, além dos familiares, os votos de todos os ausentes catequizados, quer pelo cheiro dos assados, quer pela militância de quem encheu o bandulho na festa. É assim que se preparam eleições em muitos locais do país, e é assim que os candidatos, naturalmente, com a boca e os dedos um tanto lambuzados, distribuem sorrisos, apertos de mão e até beijinhos em que os lábios não podem intervir, porque os guardanapos nem sempre estão à mão.
Depois há aquelas gracinhas que se trocam no calor dos braseiros e no entusiasmo que vem de dentro para fora, em que o assunto começa sempre por fazer votos e acaba sempre também com os votos do dia tal. Isto é a tradição, garante quem sabe, que é infalível para a vitória nesse tal dia.
Ao que parece, a tradição já não é o que era para todos os candidatos que querem a vitória, havendo quem privilegie um bom e grande salão restaurante repleto de apoiantes, que pagam com gosto, o repasto comum, que até podem ser as perninhas de frango bem vistosas, com molho aveludado em pratos luzidios, com bons garfos e facas que não deixam lambuzar os dedos, nem os lábios sempre prontos para a beijoquice do cerimonial. 
Sempre é outra classe este ambiente chique, com discurso difundido em som excelente, sem fumo a cheirar a gordura queimada no carvão, tão preferido daqueles que bebem uma boa garrafa, enquanto enchem as goelas desse perfume que se mistura às mil maravilhas com o néctar que escorre deliciosamente por ali abaixo.
A questão está, pois, no local onde se comem as perninhas de frango e a carne assada, além do conceito que se tem do modo de as cozinhar de forma a ganhar eleições, objectivo final de qualquer dos apreciadores dessas iguarias.
Mas, a razão desta ementa tão popular, e a razão de ser da sua evocação com vista ao sucesso, tem a ver com os assadores de bidão e com os espaços ao ar livre, com entrada livre e livre de pagamento do repasto, o que pressupõe enchentes que os salões enormes não comportam.
Na verdade, quem quer ganhar eleições, não pode contar apenas com a comodidade dos vistosos, brilhantes, reluzentes e caros salões de gente chique. O povo prefere perninhas de frango e carne assada, diz quem sabe, nem que seja ao sol ou à chuva.