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afonsonunes

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08 Fev, 2009

Manel e Ógusto

O Manel é aquele sujeito que diz tudo na linhaça, que sempre foi um modelo de tudo e de mais alguma coisa, que aprendeu lá fora, tudo o que sabe, e que depois veio para cá ensinar como se vive em família, e como se deve portar o pessoal, em termos de seriedade política e moral. Sem a consciência dele, o país seria um atraso de vida. Sim, muito, mas muito mais do que estarão a pensar.

O Ógusto é assim uma espécie de meio irmão do Manel porque, vivendo na mesma casa, comendo à mesma mesa, e pertencendo à mesma confissão, lêem por cartilhas diferentes, o que os leva a discussões intermináveis. O Ógusto é um defensor acérrimo da família, deixando as críticas para os vizinhos, que o Manel gosta de defender, mesmo quando tenha de estar contra a família.
Têm em comum serem excelentes malhadores, na condição de estarem sempre um em frente do outro, mangual contra mangual, nunca ambos lado a lado. A eira onde se estende a palha já está moída de tanto malharem nela. De grão, nem sinal. A eira já deu o que tinha a dar. Mas eles continuam a malhar, ora com tendência para a esquerda, ora guinando mais à direita na eira.
O Ógusto diz que gosta mesmo, é de malhar nos amigos do Manel, em defesa da família, quando aqueles malham a torto e a direito contra ela. O Manel está sempre do lado dos amigos, malhando sem dó nem piedade no Ógusto logo, nos restantes membros da família, com algumas excepções que lhe servem de ânimo e alento para a sua luta contra todos os medos, com excepção dos seus.
A malha também é um jogo, por sinal um jogo tradicional do nosso povo rural que, inevitavelmente, acabou por chegar aos meios urbanos, com os costumados desvios de percurso. O povo jogava à malha com uns objectos (as malhas) arremessados à distância contra uns pinos para ganhar pontos. Pontos que davam direito a copos na tasca do lado.
A malha do Manel e do Ógusto, é outra bem diferente. Para já, é frequente parecer que ambos estão com os copos, antes de começarem a malhar um no outro. Quer isto parecer que receberem o prémio antes de jogar à malha, antes de derrubarem os pinos, antes de conquistarem os pontos e antes de terem direito aos copos.
Curioso é que o Manel não gosta do termo malhar, que o Ógusto emprega com muita propriedade. Mas, na verdade, é o Manel que é um verdadeiro especialista em malhar na família onde, apesar de tudo, continua a ser tratado como uma referência moral. A prova disso, é que o próprio Ógusto, já disse que era um pigmeu, quando comparado com o mano Manel. É bonito ouvir malhas destas.
Espero bem, não ter estado para aqui a malhar em ferro frio. Se foi o caso, também não faz mal nenhum, porque não sou o único no meio desta eira de malhadores que é o país. Quem não gostar de malhar, ou ser malhado, está fora de cena.
Portanto, toca a malhar, pois há sempre um bom pretexto, e um bom motivo, para malhar com gosto e muito prazer.