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afonsonunes

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09 Fev, 2009

Malandrecos

 

 
Eu já tinha desconfiado que muitos dos grandes decisores eram uns malandrecos, quando toca a decidir os nossos interesses, mas as minhas desconfianças não iam além disso. Mais imposto menos imposto, mais paleio menos paleio, até admito que é natural, e está dentro das suas árduas tarefas, que são, mais ou menos, distribuir ou concentrar o pilim por onde lhes der mais jeito.
A partir de agora as minhas desconfianças alargaram os seus horizontes, ao ver o modo como eles ocupam os seus tempos livres. Até porque eu julgava que eles não tinham tempos livres, tal como os hotéis não têm quartos livres na estação alta, com cem por cento de ocupação. Ora eu desconfio bem, que é aí que eles são mais malandrecos, quando andam de quarto em quarto, sem dar a devida atenção às espreitadelas pelos buracos das fechaduras.
Que fique bem claro que não estou a acusar nenhum deles de meter o nariz onde não é chamado, porque sei perfeitamente que, se eles o fizeram, foi por tradição que já vem de trás, de outros malandrecos que vi na televisão. Claro que fiquei escandalizado. E eu a pensar que um determinado malandreco só tinha feito umas traquinices com uma governanta, durante o seu consulado de décadas.
Afinal, o malandreco era um autêntico activista na arte de governar-se e de governar um sortido armazém no ministério do amor. Se calhar era por isso que ele não passava cartão a ninguém, além de não atender às orações que eram recomendadas pelo seu capelão confessor.
Sempre ouvi dizer que ele não tinha coração. Qual quê? Aquilo era uma grande lata de manteiga derretida, onde elas iam molhar a sopa e consolar os apetites. Só eram obrigadas a ter o cuidado de andar sempre de porta entreaberta, para ir na ocasião propícia, isto é, uma de cada vez, para não haver desordem. Lá organizadinho era ele.
Por ver estas cenas é que eu já desconfio de tudo e de todos. Quem é que me garante que, depois dele, os sucessores não fizeram o mesmo? Começo a olhar mentalmente para as caras deles, e dou comigo a imaginá-los em pijama, altas horas da noite, a receber visitas que, em lugar de lhes estimularem o sono e o repouso indispensável a uma boa forma física, acabam por rebentar com eles, deixando-os a deitar os bofes pela boca fora. No dia seguinte nem se endireitam.
Quem me diz a mim que é por isso que o país nunca se endireitou, nem dá sinais de se endireitar? Esta pergunta é muito pertinente, até porque estou convencido que ainda ninguém tinha pensado nisso. Nem os melhores investigadores jornalísticos, nem os melhores comentadores políticos, nem os melhores candidatos à sucessão de tão prestigiadas figuras.
Só admito que tenha havido uma remota desconfiança por parte de quem lhes segue os passos dia e noite, na esperança de uma entrevista sensacional, no intervalo entre duas visitas de rotina. E até na esperança de um romance que poderá resultar num livro cheio de revelações estrondosas, que pode vir a vender paletes e mais paletes deles, que renderão milhões e mais milhões…
Bem, também não convém estar a especular, como se fossem eles e elas os únicos malandrecos que nós conhecemos.