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afonsonunes

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10 Fev, 2009

Leite ou iogurte

Aquela leitaria para os lados da Lapa já conheceu dias bem melhores na sua história de grandes tradições leiteiras. Aquilo era uma romaria de gente em busca do melhor copo de leite da capital, saboreado aos golinhos, com umas dentadinhas de bolo de laranja, num acolhedor ambiente decorativo à base de tons fortemente alaranjados.

Diz quem sabe que a leitaria tem uma forte relação com o poder. Se ele andar por perto, a leitaria transborda de clientes sedentos de matar a sede, naquela sede que já foi centro de decisão nacional, e não se conforma com a crise que está a afectar o leite, sem o qual nem as pessoas bebem, nem os bebés mamam como deve ser.
Agora, que o poder anda cada vez mais afastado da leitaria dos lados da Lapa, os clientes escasseiam e o mais que se vende por ali, é uma ou outra meia de leite, ou um simples garoto, ainda por cima escuro, porque se diz que o leite tem pouca qualidade.
Bons tempos em que o leite não chegava para as encomendas, servido em copos do tamanho da imperial, bebido sofregamente, porque a crise era palavra proibida, e ali nem sequer entrava um leve pensamento em tom de rosa, que ofuscasse o esplendor alaranjado das conversas plenas de confiança e fartura interminável.
A leitaria já tentou inovar nestes tempos de vacas magras, introduzindo produtos derivados do leite, como meio de o impingir, caso do leite-creme, ou do queijo fresco, mas a clientela, escassa e desconfiada da qualidade do leite, alega que ele é magro, desnatado e, imagine-se, proveniente de vacas loucas.
Os clientes mais importantes, a cada dia que passa, dão sugestões cada vez mais impositivas à gerência da leitaria, no sentido de resolver de vez, o problema do leite. Já se colocou a hipótese de transformar todo o leite em iogurte. Mas, houve logo quem dissesse que o iogurte é leite azedo. Logo, quem não gosta do leite no copo tradicional, também não gostaria do iogurte.
Não senhor, ripostou um dos sócios da leitaria. No iogurte, podemos misturar muitos sabores ou odores que disfarçam a qualidade do leite. Até se pode fazer iogurte com pedaços, por exemplo, de ananás, cereja ou kiwi, onde o sabor do leite azedo, mesmo que seja magro e desnatado, nunca mais se notará.
Pois sim, mas… O leite, a leitaria, a tradição deste local, à Lapa, nunca mais seria o que já foi, sem o copo de leite quentinho e reconfortante. Temos de ir às origens do leite, dizia o gerente da leitaria, temos de garantir que o leite vem das melhores vacas, oriundas dos melhores pastos, nem que tenhamos de ir à Suíça.
Não, o leite está estragado, está estragado e ponto final, concluía o sócio mais importante da leitaria. Com leite deste não vamos a lado nenhum. Isto vai deixar de ser uma leitaria. Vai nascer aqui, à Lapa, uma pastelaria especializada em iogurtes com pedaços de laranja, toda a espécie de doces e bolos de laranja e algumas especialidades de sumos de laranja e tangerina.
O gerente, entusiasmado, logo acrescentou que também serviriam uns pratinhos económicos de coelho com molho de iogurte de laranja, confeccionados pelo excelente pasteleiro, Pedrinho.
Foi assim que se resolveu o problema do leite e da leitaria à Lapa.